Raul Machado, meta-poeta.

Today in Literature
Le Club de Mediapart

 

                     Oração ao Quixote

 

 

Que o elmo enferrujado

Pelo suor da aventura

Resplandeça enluarado

Coroando tua loucura.

 

Que os ventos dos caminhos

– A las cinco em punto de la tarde –

Alucinem os moinhos

Se a lança em tua mão arde.

 

Que a pá do moinho cave

Tua livre utopia

No ar duro de Castela

E alcances a longínqua estrela

Que chamaste Dulcineia.

 

Pois tua é a mais livre águia

A cantar tua liberdade

Ferindo com suas  garras

Nossa racional mediocridade.

 

 

 

Resenhas by Rachel – WordPress.com

Rio-grandina

 

 

A morena de Rio Grande

Tem algas nas suas tranças

E um cheiro de maresia

Nas ondas de suas ancas.

 

Nem é porto ou praia mansa

Seu galope de potranca

No marulho da cidade

De São Pedro e de pampa.

 

Natural é seu amar

Como as marés inconstantes

No cambiar dos quadrantes

Por sobre o jade do mar.

 

Quando essa sereia dança

Olhos machos de esperança

Põem-se logo a desejar

Seu corpo de sol e mar.

 

A morena de Rio Grande

Florescida pelo sol

Tem do peixe a liberdade

Em seu mundo sem anzol.

 

———————————————————————————–

 

O Animal Nu

 

Na linha azul do horizonte,

Traceja seu curso em ritmo

De fogo e pó

Sobre todo o verde.

 

Geme a terra sob seus cascos?

-Sim! – grita o homem ensandecido,

Ébrio de vento e vida.

(À frente, é só morte…)

 

O cavalo tem a força de seu corpo:

Montá-lo é ligar-se ao seu sexo,

Músculo a músculo,

No tecido másculo

De sua liberdade carnal.

 

O cavalo desnuda a verdade

Do cavaleiro,

Tecendo no ar a geometria alada

De seu livre arfar.

 

—————————————————————————-

 

Guasca Pós-moderno

Twitter

Gaúcho motorizado, pós-moderno, globalizado,

Mora em flat, fala em off, o endereço está no site,

Compra em shopping, no cut-off,

Imitando a high society, filma em set

Vê o play-off do farrapo já passado.

 

Se é de esquerda, é só light, bebendo a coke diet,

Não dispensa a bombacha e o chimarrão,

Que isso é um bom copy-right

Para a próxima eleição.

 

Deixou de lado o seu flete, exercícios só na bike,

Faz seu cooper no parcão, navega pela internet,

Com nike protege o garrão,

Sonhando jogar basquete.

 

Se se olha no espelho, o que vê?

Um narciso esquizofrênico

Que ainda pensa que é um tchê.

 

Ó Narciso provinciano, vê os outros, não só a ti.

Olha o carioca e o baiano dançam na Sapucaí.

Lê o Cyro e o Machado, estás a pé, desencantado,

Empobrecido, desmitificado.

 

Vai bailar num cetegê ou cantar todo pilchado

No galpão de uma tevê.

———————————————————————————

 

                          Metapoemas

                                    1Pinterest

 

O texto é enganador,

Ilude tão completamente

Que transforma pro leitor

Em verdade o que lhe mente.

2

 

O poeta não desvela

O objeto que revela,

Mas dá seus olhos de ver

O seu solitário ser.

3

 

Primeiro: compreender pela intuição,

bússola do sentimento.

Depois: nomear.

Não, depois calar

no fundo

E encontrar o argumento,

No silêncio eloquente

Do saber do coração.

4

Pinterest

No meio do verso

tinha uma pedra

No meio da pedra

tinha um caminho

No meio do caminho

estava a palavra

 

 

Nunca saberei

a palavra

do caminho

da pedra

do meio

do verso

 

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4

 

No meio do verso

tinha uma pedra

No meio da pedra

tinha um caminho

No meio do caminho

estava a palavra

 

 

Nunca saberei

a palavra

do caminho

da pedra

do meio

do verso

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