José Horta Manzano, caetanista; animador do BrasilDeLonge e jornalista para o Correio Braziliense

Meu pé de laranja-lima

José Horta Manzano (caetanista; animador do BrasilDeLonge e jornalista para o Correio Braziliense)

Nossa língua tem maneira bem prática de dar nome a árvores frutíferas. Partindo do nome do fruto, acrescenta-se a desinência -eiro ou -eira à raiz da palavra. Não funciona em todos os casos, mas dá pro gasto.

Pra compensar, o sistema serve até para alguns arbustos e até para árvores que não dão frutos comestíveis. Assim, temos: manga/mangueira, abacate/abacateiro, goiaba/goiabeira, laranja/laranjeira, tomate/tomateiro. Mas também: paineira, caneleira, magnoleira, palmeira.

clique para ampliar

Sabe-se lá por que razão, uma correlação tão simples é cada vez mais ignorada. Em vez de cafeeiro, muitos usam «pé de café». No lugar de abacateiro, «pé de abacate». E ainda «pé de laranja», «pé de pitanga» e por aí vai. Será a lei do mínimo esforço em ação? É uma pena. Acho um empobrecimento.

Ontem, na legenda de uma bela foto, o Estadão explicou que se tratava de uma «fábrica de tijolos». Este blogueiro é do tempo em que esse tipo rudimentar de indústria se chamava olaria. A palavra deve ter-se tornado arcaica. E eu junto.

Uma curiosidade
No caso de fruta, o nome da árvore será sempre do mesmo gênero que o nome da fruta. Assim: pêssego/pessegueiro, ameixa/ameixeira, mamão/mamoeiro, pera/pereira. Há uma única exceção: figo/figueira.

————————————

Fiquei devastado

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa simples. Frases de aparência inofensiva escondem armadilhas. Uma delas é a contaminação. Basta um instante de desatenção e… catapum! O escriba dá uma escorregadela e troca os pés pelas mãos.

A contaminação se dá quando o termo a traduzir encontra na língua de destino um par que, embora muito semelhante, não dá exatamente o mesmo recado. A tentação é grande de optar pela simplicidade, utilizar a palavra parecida e seguir caminho. Mas nem sempre é a melhor opção. Parecido não é igual.

Quando se sente extremamente chocado com um acontecido, o inglês costuma dizer «I am devastated». Dia sim, outro também, encontramos na mídia nacional a tradução literal: «Fiquei devastado». Errado, propriamente, não está, mas soa esquisito e artificial como filme mal dublado.

Devastar(*) é formado pelo verbo vastar precedido pela partícula de reforço «de». Na origem, significa esvaziar um lugar e transformá-lo em deserto inabitado. Quem preferir traduzir «devastated» por «devastado» que o faça. Proibido não é, mas, convenhamos, um pouco de aplicação não faz mal a ninguém.

Segue aqui abaixo uma lista (não exaustiva) de substitutos. Cada um carrega uma nuance específica, mas giram todos em torno do mesmo tema. Da próxima vez, em lugar do bizarro «Fiquei devastado», experimente:

●  Fiquei arrasado
●  Fiquei abalado
●  Fiquei afetado
●  Fiquei impressionado
●  Fiquei assustado
●  Fiquei perturbado
●  Fiquei abatido
●  Fiquei estremecido
●  Fiquei horrorizado
●  Fiquei aflito
●  Fiquei sensibilizado
●  Fiquei atristado
●  Fiquei entristecido
●  Fiquei compungido
●  Fiquei chocado
●  Fiquei alarmado
●  Fiquei comovido
●  Fiquei aniquilado
●  Fiquei desolado
●  Fiquei aterrado
●  Fiquei destroçado

Não será por falta de opção, não é? Ninguém mais precisa se sentir “devastado”.

(*) Vasto é termo de origem germânica. É parente do inglês waste, do francês gâter, do alemão wüst (deserto), do português gasto.

Anúncios
Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s