Renato Castanhari Jr. e a sabedoria.

O SABER DO TEMPO

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Renato Castanhari Jr. (caetanista, publicitário e escritor)

Segundona brava, transito comendo solto logo cedo, carros indo e vindo com a ansiedade dos seus condutores movendo as rodas, buzinas legendando em som a falta de paciência, a vontade de chegar logo, fosse onde fosse.
Jony assistia a tudo enquanto caminhava acelerado em direção ao parque que ficava a algumas quadras da sua quitinete. Sua vontade era estar parado naquele transito, mas o mercado freou seus desejos e o empurrou para caminhar, melhor do que ficar ruminando ranço em trinta metros quadrados.
Seus pensamentos estavam na história que ouvira na noite anterior de um menino de doze anos que havia se suicidado em razão de bulliyng sofrido na escola. Sua mente voltava no tempo tentando localizar essa mesma situação quando nessa mesma idade quem sofria bulliyng era ele. E a alternativa, de tirar a própria vida, jamais havia passado pela sua cabeça.
– Seriam outros tempos, outra realidade? Eu nem sabia que tinha esse nome, bulliyng. A gente se irritava, as vezes apelava, mas o jogo seguia. Eu era gordo mesmo, não tinha como negar, mas me chamar de “bolota” enchia o saco!!
Já dentro do parque, Jony seguia a trilha ladeada por grandes árvores que sempre pegava. Ao final dela, seu banco o esperava. Hoje havia um senhor sentado na ponta do fundo. Jony pensou em não parar, mas precisava pensar. Pensar no que fazer para não chegar ao extremo que chegou o garoto.
Lembrou do professor fazendo uma explanação sobre a vida, quando estavam perto de se formar no colegial. Da projeção que ele fazia, que terminava uma etapa, mas que a seguinte vinha com novos desafios, entrar na faculdade, focar na atividade profissional que iria comandar a sua vida dali para frente. E depois o desafio de formar uma família, ter filhos, sustentar e formar esses filhos. A vida era uma grande trilha, com seus prazos para vencer cada etapa. Eram mais 15 anos. Quinze anos para definir a carreira, ter um emprego estável, casar e criar esse mesmo ciclo, que seus pais criaram, para os seus rebentos. O tempo passou e ele furou todos os prazos. E aquela criança nem chance vai ter de tentar cumprir este ciclo.
Sem nem se dar conta, já estava sentado, até esqueceu do senhor sentado na outra ponta. Sua mão esfregava a testa, seus olhos abriam e fechavam, sua aflição era patente, escancarada. O que chamou a atenção do senhor de bermudas, boné da Nike e óculos escuros. Ele olhou para o Jony por cima dos óculos para tentar entender melhor. E ficou assim, intrigado. Até que não aguentou mais.
– Está tudo bem?
A pergunta fez Jony sair do transe.
– Como? Ah… Oi. Tudo bem sim… mais ou menos…
A forma tranquila e leve do senhor abriu o colo para Jony relaxar e conversar. Era talvez o que ele mais precisava, conversar. E os dois começaram a conversar.
– … doze anos… pulou da janela?
– Pulou da janela.
– Meu Deus! Mas você não está pensando em pular da janela…
– Não, não, rsss… não é o caso. Ainda. Mas eu sinto que o meu prazo está se esgotando. Aquilo que eu disse do professor em sala de aula, não cumpri quase nada no tempo certo. Não sei o que faço, o que vai ser…
O senhor deu um suspiro, apertou os lábios enquanto concordava com a cabeça. Seu braço direito estava sobre o encosto do banco e a mão esquerda alisava o queixo e a boca lentamente.
– Então… interessante essa linha do tempo criada pelo seu professor. Estabelecer um padrão dessa importância para a vida de adolescentes é, no mínimo, irresponsável. Eu diria até cruel.
Como você pode perceber, pelas minhas rugas, em já vivi um tanto bom, mais do dobro de você. E já vi de tudo nesta vida, de tudo mesmo.
Tive amigos de escola que eram os primeiros da classe, alguns entraram de cara na faculdade, logo estavam empregados e viraram empresários super bem-sucedidos. Outros foram muito mal, bombaram de ano, alguns nem faculdade fizeram, e viraram empresários, diretores de empresa, muito bem-sucedidos. E alguns que tiravam as melhores notas, nem conseguiram boa colocação no mercado, teve um que se matou. Vários demoraram muito tempo para encontrar um caminho, muitos se encontraram em uma atividade completamente diferente daquela que trilharam no início. Teve quem se casou e foi muito feliz. Teve quem se casou e se separou. Tem um que continua casado e ama uma amiga nossa desde os tempos de faculdade.
Cada um tem o seu relógio ajustado, o seu tempo para as coisas acontecerem. E o conflito maior hoje em dia é exatamente conciliar essa ansiedade, essa necessidade de rapidez na concretização dos desejos, com a prerrogativa que só o tempo tem de permitir que as coisas aconteçam. Ele dá o prazo, não o seu professor.
Eu mesmo já me senti atrasado nas realizações que eu planejava e, neste mesmo momento, tinha amigos que me viam muito na frente deles.
Tenho um amigo de escola que passou em primeiro lugar em arquitetura na FAU e trabalhou muito pouco na área. Foi se encontrar na publicidade porque depois de dez anos reencontrou um amigo nosso do colegial, que virou publicitário e deu uma chance para ele. Hoje ele tem a sua própria empresa na publicidade.
“Nem tudo que conta pode ser contado, e nem tudo que pode ser contado conta.” Dizem que esta frase é do Einstein, mas não é não, é de um sociólogo. Veja o Einstein, ele não falou até os 4 anos e aprendeu a ler aos 7 anos. E ganhou o prêmio Nobel de Física.
O Thomas Edison foi considerado “muito burro para aprender qualquer coisa”, segundo um professor dele do primário. E inventou a lâmpada. Depois de 1.001 tentativas!! Se ele tivesse desistido na décima ou mesmo na milésima, será que a gente estaria à luz de vela hoje?
Walt Disney foi demitido do jornal Kansas City Star, em 1919, porque segundo o seu editor “faltava imaginação e ele não tinha boas ideias”. Em 1932 ele ganhou o primeiro dos vinte e dois Oscars dados pela Academia de Hollywood.

Aquele alguma coisa Kroc, que fundou a rede McDonald’s trabalhava, até os 52 anos, como vendedor de copos de papel e misturadores de milk-shakes.
O Soichiro Honda, não conseguiu emprego na Toyota e começou a fazer scooters na sua própria garagem, sei lá com quantos anos, mas não era novo, não.
E eu posso ficar aqui até amanhã lembrando de pessoas que se deram bem depois dos 40, 50, 60, muitos nem faculdade tinham.
É verdade que muita gente passa a vida fazendo algo que nem gosta, mas que precisa fazer para sobreviver. Talvez, optar pela felicidade possa trazer problemas em um primeiro momento ou até pelo resto do tempo. Mas se não tentar, a gente nunca vai saber, e isto pode custar o “ser mais feliz”. Que é o que importa. E não existe tempo para isso. Se reinventar aos 60 dá trabalho, exige vontade, sonhar e correr atrás. Eu costumo chamar isso de viver. E não apenas respirar.
Jony olhava para o senhor, que ele nem sabia como chamava, com a admiração que dedicamos aos “gurus”. Como o destino o colocou bem no seu banco, onde ele nunca o tinha visto?
– Acho que falei demais, meu jovem. Você estava aqui pensando na vida e eu me intrometi nos seus pensamentos. Agora vou embora, preciso chegar logo em casa porque este nosso papo me deu uma ideia nova de consultoria, hehehe…
– Olha, meu senhor, com certeza foram os meus anjos que colocaram o senhor aqui neste banco hoje. Não sei como agradecer este nosso papo.
– Tem nada que agradecer, foi um prazer.
Ahhhh, lembrei de mais um. Sabe o que fazia o Harrison Ford até os 30 anos, antes de virar o Indiana Jones, o Han Solo de Star Wars??? Era carpinteiro!!!!

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