Lindos minicontos do Raul Machado

PARA EXORCIZAR 13 DE AGOSTO, SEXTA-FEIRA        

    • Invoco os 4 ventos para apaziguar o terror do menino insone que fui a fim de não perder-me no naufrágio dos pesadelos. Os ventos do norte que vergastam navios no porto e limpam a lepra do mar que se mete no íntimo das coisas. Exconjuro o gato preto – sombra de sombra – que causou a desgraça de meus ancestrais , ao cruzar no caminho de minha avó. Sob uma nuvem que pressagia a sexta-feira, 13, ponho o retrato mais triste de meu pai, menino sem valor que a seus olhos fui, na clara condição de abandonado. Abro a porta, liberando a onda que sufoca. Levanto-me, valente, com todos os amuletos protetores que o Senhor do  “Bom Fim”, no ardente neon dos motéis, no sabor de teus músculos, me  devolvem aquela ânsia adolescente de masturbação. Conclamo as legiões de anjos selvagens, obrigando a revelar-me o lugar onde nascem as palavras que rompem mordaças para entregar-me à  pantera fiel da luxúria. Que a luz do corpo afaste a miséria da alma!  Que exconjure a desgraça maior das sextas-feiras, 13,  sem tirar-me a vontade de amar-te, en todos los 13 de martes.        Amen.        
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    •                                   MINICONTOS POÉTICOS                                           PALAVRAS    
    • O vazio das coisas está expresso na palavra, cuja superfície já nada diz.    Um abismo separa as coisas dos termos que as designam.    A palavra é um imenso sudário.    Sob a página não há história certa ou ambígua. Só violência cega e    abstrações inumeráveis. Vazias pululam estas mortas palavras.    Elas são um mar de afogadas existências no muro branco do papel.    Espelhos de imagens repercutindo ecos de vozes já sem vida.    O branco da página não basta para esconder o nada que buscam expressar.    A palavra, orgulhosa, querendo tudo dizer, nada mais é que um escalafrio,    como a figura de um Washington nas notas de 1 dólar.  
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  • A  LAGARTIXA  
  •    A lagartixa tem muita força. Trepa pelos muros claros como dias de verão.    Elege um raio de sol. Um só e se detém sobre o muro a gozá-lo.    Logo, elege outro e outro e outro. Cada raio é um dia de verão    que ela absorve em sua pele rugosa, gota a gota, até fartar-se de luz.    Em cada mil insolações, muda de pele, renovando-se.    Também o raio de sol vai mudando pelo muro, até morrer    no nascer da lua nova.                                           
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  • OLHO D`ÁGUA     
  • Nossa ilha é uma caravela solta nos olhos d`água das poças que a chuva deixou.     Sua vela é uma palmeira de ramos como estrelas verdes. Nela embarcamos felizes na direção de um porto infinitamente remoto, onde a morte vive. Este vagar às velas soltas sobre as águas translúcidas é o nosso caminho de vida. Apenas isso. O céu aberto se estende até os limites permitidos pelo Grande Assassino, onisciente e todo-poderoso. De nada adianta fugir do irremediável, buscar escapatória em outros mares, pois nosso olho d`água é este que nos foi dado: aberto a um céu que nos exila.  
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  •   O ESCORPIÃO     
  • O escorpião, morador da escuridão, tem ódio de sua sombra. Cauda sempre em riste, depositando seu veneno mortal, peçonha de sua eterna guerra solitária, fascinado por sua explícita maldade.    Mas ele nada sabe do Mal Absoluto que nas trevas se oculta, fugindo da Luz como um anjo decaído no fundo do Inferno de Dante Alighieri a reinar absoluto no inefável deserto de gelo.

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  • COISAS COMUNS    
  • Falo hoje das coisas comuns: de um botão de rosa, da espinha da roseira, das rosas murchas. Falo hoje de um menino que brincava de teatro para alegrar os familiares que amava. Dos velhos que dormitam em frente  da televisão que os embala como se bebês fossem. Falo hoje do cadáver que irão cremar, do homem que jamais declarou seu amor.    Falo hoje de coisas tão sem importância, tão comuns como uma mosca ou um amanhecer. Tão cotidianas como o amor e a morte.    Falo hoje que muitos morrerão com a esperança já morta ou daqueles que nos abandonaram e dos que não veem as estrelas tremeluzentes no céu escuro.    Falo hoje dos que não têm animais de estimação, nem beija-flor ou violetas imperiais.    Falo dos homens e mulheres pobres que não saem para ver filmes ou espetáculos teatrais porque são muito caros.    Falo enfim de mim mesmo, do nada, do ninguém que sou.
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2 respostas para Lindos minicontos do Raul Machado

  1. Maria Heloisa Martins Dias disse:

    Prezado Raul Machado, parabéns por seus minicontos!!! Fascinam-me a sensibilidade e a astúcia capazes de criar textos curtos com profundidade. Penso que o poético está nesse espaço instável (e difícil) entre a amplitude de sentidos e o limite da forma. Continue a criar seus textos assim, os leitores como eu agradecem. Vou enviar, se me permite, textos meus para passarmos a trocar essa instigante prática literária. Abraços caetanistas da Maria Heloísa M. Dias

  2. Feliz encontro; mando os endereços por e-mail. Bjs aos dois!

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