Renato Castanhari Jr.

AINDA NOSSO

por Renato Castanhari Jr.

Quando a gente é mais jovem, vive a fase do que poderemos ser.
Quando assumimos um novo cargo, vivemos a fase do que poderemos fazer.
Aí o tempo passa, envelhecemos e passamos a viver a fase do que poderíamos ter sido. E o que poderíamos ter feito.
Neste momento em que o país deu uma demonstração cabal do que não aguenta mais, um rompimento explícito com a forma de fazer política das últimas décadas, vem à memória as oportunidades perdidas no passado.
Até ontem, eram dois candidatos ao cargo.
Hoje temos um novo comando eleito que será empossado no primeiro dia de um novo ano. É a oportunidade de ser. Uma nova chance de fazer.
Quando um ex-operário teve esta mesma oportunidade há 16 anos, a expectativa era que ele colocasse em prática os seus discursos, suas promessas de fazer diferente. E gradativamente ele foi sendo sugado pelo sistema, pela ambição, pela errônea pretensão de ser maior do que seu criador. Hoje, jaz numa cela ouvindo pela madrugada afora os fogos de artifício e os cantos de uma multidão que comemorava a derrota de sua última tacada, comandada dali mesmo, por detrás das barras de ferro. E deixa seu maior legado: a polarização, o conflito que tanto alimentou entre seres nascidos sobre o mesmo solo, o ódio.
De um lado, aqueles que se sentem injuriados, maltratados, roubados e assaltados nesses anos todos. Do outro, aqueles também maltratados, roubados, assaltados, mas que fazem parte do “time” da criatura. Que aprenderam a enxergar quem não pensa como eles como inimigos. Em comum o ódio. Que além da raiva, tem um componente essencial para que o sangue suba, o medo.
Esse mesmo medo semeado pelos oportunistas, pelos Nostradamus do apocalipse que profetizam o caos, cobertos pela soberba, pela capacidade de enxergar mais longe e melhor do que aqueles iludidos pelo Coiso. Melhor pintar um quadro negro para que os que estão do lado de lá fiquem na dúvida de se manterem lá. Melhor alimentar o quanto pior melhor para incutirem a dúvida de que o que está horrível, péssimo, possa ficar ainda mais desastroso. Escamoteando a verdade que quem se apresentou como seu salvador deste caos faz parte do grupo que provocou este caos.
E o Coiso foi o eleito pela maioria. Da mesma forma que uma outra maioria, há quatro anos, reelegeu uma Coisa. Este ano, se somarmos quem não foi votar, quem anulou, votou em branco e no Professor, dá mais do que quem votou no Capitão. Há quatro anos, a diferença foi alguns milhões a mais do que quem votou na Coisa. Ou seja, são votos da não opção.
A diferença, em relação às últimas eleições, é que o perdedor não parabenizou o ganhador. O Professor não reconheceu a derrota e se prontificou a ajudar seu novo presidente, com todas as restrições e oposições naturais. Ao contrário, se dirigiu à sua milícia alimentando mais ainda o “Nós contra Eles”, como de praxe.
O que sobra dessa guerra é que temos muito ainda que aprender como nação e como seres que se dizem humanos.
Continuamos nos preocupando apenas com o nosso próprio umbigo, agrupados em gangues, sem a preocupação com o coletivo.
Continuamos mais preocupados em ter razão, do que em refletir, pensar, avaliar e reconsiderar se for o caso. Reflexo de todas dificuldades que passamos, das nossas insatisfações pessoais, das faltas de realizações profissionais, aquelas que deveriam estar no devido nível do grande ser, magnânimos que somos.
Consideramos que a nossa razão está acima de todos, porque é nossa, e quem tiver outra opinião está errado, não enxerga, não sabe nada.
Continuamos agredindo, criticando aquilo que nós mesmos praticamos. O que não é nem um pouco democrático.
E aí, a sensação é que teremos uma repetição do que já aconteceu antes. No primeiro dia do novo mandato, deveremos ouvir “Fora Coiso”, como já ouvimos “Fora FHC”, “Fora Temer”.
Temos um novo presidente eleito. E ele tem a sua oportunidade de ser. A chance de fazer. Disse que vai presidir com a constituição e a democracia, o que todos queríamos ouvir.
Vamos tentar, da nossa parte, ser e fazer diferente. Sem antever o mal, a derrocada, só porque ele não é o que queríamos. No fundo, ele não é mesmo o que a grande maioria queria, mas é o que temos como comandante do barco agora.
Não vamos, por birra, fazer furos neste casco, que é nosso.

Renato Castanhari Jr. | 29/10/2018 às 11:07 am | Categorias: CRÔNICAS/CONTOS | URL: https://wp.me/p1GYYg-x9
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