Myrthes Suplicy Vieira – Quando a versão é mais atraente do que os fatos

Quando a versão é mais atraente do que os fatos

Ignorância é uma coisa. Ninguém nasce sabendo e, mesmo que a pessoa se dedique ao longo da vida a adquirir conhecimento enciclopédico, pode morrer ignorando outros saberes advindos das experiências de vida de outras pessoas. É o equivalente a ser desinformado, grosseiro, mal-educado, ingênuo ou crédulo, como aponta o dicionário.

Disseminar boatos e informações falsas, sem se preocupar em averiguar a veracidade do conteúdo nem a idoneidade da fonte, é outra coisa: é uma combinação explosiva de preguiça mental, desonestidade intelectual e abominável falta de caráter. Já propagar deliberadamente versões sabidamente falsas sobre fatos históricos, com o objetivo primário de dar sustentação às próprias estratégias de poder, é algo completamente distinto: é crime. Ponto.

Estamos a poucos dias do aniversário de 55 anos da implantação de uma ditadura militar – ou golpe militar, como prefiram – em solo brasileiro. A mídia foi inundada esta semana por declarações estapafúrdias de gente da extrema-direita, incluindo o próprio clã presidencial, que foram duramente refutadas por entidades de proteção dos direitos humanos.

É provável que muitos estejam se sentindo confusos com tanto desencontro de informações.

Afinal, foi ou não foi uma ditadura? Tratou-se de uma iniciativa popular ou foi engendrada nos quartéis? Contou ou não com o apoio maciço da população? Quais “probleminhas” enfrentou o regime militar ao longo de seus 21 anos no poder? Houve ou não corrupção no período? Por que o poder foi devolvido “graciosamente” aos civis, sem mais derramamento de sangue? O que é mais relevante para construir um futuro glorioso para o país: o controle da economia ou a diminuição da desigualdade social?

Essas e outras perguntas são legítimas e podem ser feitas legitimamente por todos aqueles que não viveram os anos de chumbo, não experimentaram em suas peles (ou na de familiares e amigos) as consequências dos atos de repressão dos governos militares e ainda, em caráter especial, pelas novas gerações – já que, segundo a tese hegemônica atual, elas teriam sido alvo de lavagem cerebral, doutrinadas por seus professores de esquerda.

As respostas? Ah, as respostas… Haverá uma verdade única, que nos libertará, ou serão todas elas relativas? Só uma coisa é certa: será fácil encontrar uma para cada gosto. Todo iniciado no debate político tem o direito inalienável de ter livre acesso a fontes confiáveis de informação, seja no plano nacional ou internacional, para dirimir suas dúvidas e adotar uma posição clara.

Os livros de história estão aí para oferecer percepções sob os mais diversos ângulos. No século 21, graças à revolução tecnológica, também as respostas de intelectuais e pesquisadores de outras áreas estão ao alcance de um dedo. Basta “dar um Google” e, em segundos, a tela de seu computador ou celular se encherá de páginas e mais páginas de dados. Caso a confiabilidade das fontes ainda esteja sob suspeição ou se o inquiridor não souber discernir qual delas se aproxima mais da verdade dos fatos, pode acessar os arquivos oficiais do governo, os dados coletados pela Comissão da Verdade e pela Anistia Internacional, ou ainda a vasta literatura sobre o período disponível nas bibliotecas nacionais e internacionais mais famosas.

Tudo isso sem contar, é claro, com o depoimento de vítimas da repressão que ainda estão vivas – fato a que pouco se atenta nestes dias de veneração das polêmicas. Na hipótese de o pesquisador considerar que as narrativas de figuras notórias de esquerda devem ser descartadas por seu provável viés, ainda resta ao infeliz buscador de respostas enfronhar-se nos relatos dos principais jornais e revistas da época, consultar entrevistas e livros escritos por militantes da direita e até integrantes das Forças Armadas.

A conclusão, é óbvio, fica por conta de cada um. Qualquer que ela seja, porém, a sociedade terá arrebanhado benefícios cruciais se mais e mais pessoas se dispuserem a fundamentar suas opiniões: em primeiríssimo lugar, o desenvolvimento de pensamento crítico por fatias maiores da população; a consequente troca dos discursos de ódio nas redes sociais por um debate informado; e a desassociação entre os conceitos de liberdade de expressão e
intolerância cega.

Só duas conclusões, no entanto, me parecem inadmissíveis. Primeiro, a de que governos militares sejam de per se melhores (isto é, mais sensíveis ao atendimento das demandas da cidadania) ou mais honrados do que governos civis. O atual pensamento binário sofrerá morte rápida e indolor, se as pessoas aprenderem a individualizar suas críticas e sua admiração.

Isto posto, deve ficar igualmente claro para a maioria que a ideia de instaurar um regime autoritário de exceção como forma de combate a uma ditadura apenas por ela ser de matiz ideológico oposto é um atentado à lógica e ao bom-senso. Não existe ditadura democrática.

Nem mesmo quando é o povo quem clama por pulso firme para pôr fim ao descalabro político, torna-se tolerável a eliminação das garantias constitucionais. Ditadura de direita dói tanto quanto ditadura de esquerda. E, como diz o ditado, quando dois elefantes brigam, quem perde é sempre a floresta.

Em segundo e mais grave lugar: a conclusão de que é lícito ironizar a justa indignação e repulsa das vítimas do regime, chamando-as de puro “mimimi”, como fez o presidente do Clube Militar no dia de ontem. Quem chegar à conclusão de que o regime de 1964 não passou de uma guerra entre ilibados defensores da pátria e criminosos terroristas inimigos do povo ainda se verá moralmente obrigado a explicitar os motivos para não honrar a memória de gente como Vladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, o deputado Rubens Paiva, a estilista Zuzu Angel, dentre centenas de outros mortos e desaparecidos que tiveram a infelicidade de estar no lugar errado, na hora errada.

Inversamente, ao conhecer as infames práticas de tortura de corpos nus diante de crianças pequenas, como as que sofreram o atual vereador Gilberto Natalini e a ex-ativista Maria Amélia Teles, qualquer pessoa medianamente racional verá aflorar diante de seus olhos o verdadeiro caráter do coronel Brilhante Ulstra, tão idolatrado pelo atual presidente.

Que fique bem claro onde quero chegar. Defendo, sem meias palavras, a tese de que qualquer um que julgue moralmente aceitável – ou se compraza com – a dor, a humilhação, o sofrimento e o extermínio de seres humanos, quaisquer que sejam as razões alegadas, é portador de distúrbios mentais e psíquicos graves. Não afirmo isso a partir de uma pretensa posição de superioridade intelectual ou moral. Esse é simplesmente um diagnóstico técnico inescapável da área de psicopatologia.

Não se deixar horrorizar ao descobrir que os mais hediondos castigos infligidos a pessoas já subjugadas, sem condições de se defender ou retaliar, não foram atitudes isoladas de indivíduos de mentalidade perversa mas sim práticas oficialmente recomendadas e adotadas por agentes do estado brasileiro, é compartilhar com eles da condição de seres abjetos, que não se encaixam em nenhuma categoria da escala civilizatória.

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2 respostas para Myrthes Suplicy Vieira – Quando a versão é mais atraente do que os fatos

  1. Palavras muito bem ponderadas , sem dúvida !.

  2. preparaste algo para me dizer? bj!

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