Myrthes Suplicy Vieira*: Educação e Adestramento

Educação e Adestramento

O sangue ferve instantaneamente em minhas veias sempre que constato que alguém confunde os conceitos de educação e ensino. A sobreposição de significados lamentavelmente não é nada incomum entre a população; até mesmo nos dicionários a confusão persiste.

Não se trata de nenhuma firula semântica, acessível apenas aos especialistas da área. Há diferenças importantes entre esses conceitos que afetam em muito a vida de todos nós. Ensinar é sinônimo de instruir, transmitir conhecimento, passar conteúdos. Pressupõe a existência de uma autoridade externa (o professor) que dissemina seus saberes especializados. É, portanto, um processo diretivo, que tem por objetivo final a convergência de pensamento.

Já a educação é um processo infinitamente mais complexo, que abrange o ensino e a aprendizagem, e se propõe como transformador da realidade. Não acontece apenas nas escolas, dura a vida toda, é divergente e não-diretivo por natureza. Pressupõe o reconhecimento da alteridade na relação educador- educando. Isto é, afirma que a função do educador não é criar clones de si mesmo e que o aluno não é mero recipiente passivo das informações que recebe. É sujeito do seu aprendizado e só a ele cabe discernir quais conteúdos coincidem com seus interesses. Ao longo do processo educativo, o aprendiz aprende a transformar autoridade externa em autoridade interna para se inserir produtivamente na sociedade. Como diz Piaget ao explicar o processo de assimilação, “Quando um coelho come um repolho, não se transforma em repolho. Transforma o repolho em coelho”.

Por isso, quando a indistinção entre os dois processos vem sorrateiramente embutida na fala do chefe do executivo – e, em especial, na daquele que tem a tarefa formal de indicar os rumos que a educação deve seguir nos próximos anos – o chão se abre embaixo dos meus pés e uma raiva enlouquecedora toma conta do meu peito.

Se já não bastasse confundir continente com conteúdo, Suas Excelências se superam quando se trata de expor as metas visadas para a educação de nível técnico ou superior. Ao tentar justificar o plano governamental de “desinvestir” nas faculdades de filosofia e sociologia e concentrar os recursos em áreas que propiciam “retorno imediato para o contribuinte”, ambos deram um passo além na missão de desinformação, padronização e alienação da sociedade brasileira.

Traduzindo para o português falado nas ruas, a mensagem repisada mil vezes por eles é: se você teve o azar de nascer pobre, vai ter de se conformar no máximo com um curso de nível técnico profissionalizante ou procurar uma faculdade onde possa acumular conhecimentos “práticos” (como agronomia, veterinária, engenharia, medicina) que lhe permitam encontrar um emprego que lhe dê condições de sobreviver e de alimentar a família. Nada de perder tempo teorizando, se perguntando sobre a natureza íntima das coisas, a origem do universo ou no que consiste a felicidade. Isso é coisa para quem é “muito rico” e não tem nada mais a fazer na vida. Portanto, o ensino dessas futilidades não pode ser bancado pelo Estado, uma vez que não gera retorno para o contribuinte, nem prosperidade para a nação.

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Se há algo de verdadeiramente educativo na proposta apresentada é, sem dúvida, a abissal ignorância de Suas Excelências a respeito de como funciona o processo cognitivo, motivacional e de aprendizagem humano. Isso sem falar na imensa carga de preconceito inserida na associação entre origem (social e geográfica) do aluno e capacidade intelectual.
Nada contra a ideia de que é função do Estado propiciar as condições para que o aluno desenvolva “habilidades” e se prepare para desempenhar com sucesso um “ofício”. Onde está então o problema?

Bem, eu diria que há muitas questões não-respondidas implícitas nesse raciocínio. Antes de mais nada, a tarefa de ensinar habilidades e ofícios não é, como já deve ter ficado claro, da educação. É do ensino de base para crianças e do adestramento [também civil, mas muito mais militar] de jovens aprendizes.

Outro ponto gravíssimo, ainda não abordado pelo governo e nem mesmo debatido entre os especialistas da área, é que, por detrás de toda e qualquer proposta educacional, está a questão dos valores. Já sabemos quais são os valores do novo governo, mas ainda falta perguntar: Os valores do conjunto da sociedade brasileira são os mesmos? Quem pode definir de pleno direito quais são as habilidades essenciais a serem aprendidas ou o que é um ofício útil para cada estudante? Acima de tudo, a pergunta suprema que não quer calar: como se faz para desenvolver cidadania plena se não for através da educação?

Custo a crer que as pessoas que aceitaram eleger Bolsonaro ainda não se tenham dado conta do caráter de totalitarismo de seu projeto governamental. Não seria mais fácil, menos constrangedor para todos, se ele convocasse uma coletiva de imprensa e anunciasse com todas as letras: “De hoje em diante, só vamos formar soldados, artesãos e mão-de-obra um pouquinho mais qualificada para atender ao mercado. Não me importa a opinião das pessoas que indiquei ou venha a indicar para o cargo de ministro da educação. Também não me interessa a visão dos especialistas da área, nem principalmente o que o povão possa querer. Ninguém deve ser autorizado – e muito menos sustentado – para pensar diferente no meu governo. Se pensar, vira militante, e isso eu não aceito”?

No livro Admirável Mundo Novo, escrito em 1931 por Aldous Huxley, já havia proposições assustadoramente parecidas com as novas diretrizes do MEC. Só para lembrar, os membros daquela sociedade eram submetidos desde o nascimento a um processo de condicionamento psicológico para viver em harmonia com o sistema de castas. Para eliminar toda forma de tensão social, agregava-se ainda a necessidade de consumo de uma droga (“o soma”), distribuída gratuitamente pelo governo, para impedir que os operários desenvolvessem qualquer senso de individualidade ou de consciência crítica sobre a realidade.

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Se é isso mesmo o que pais e mestres desejam ver implantado como resultado de seus esforços educativos – uma nova geração disciplinada, rigidamente treinada para obedecer sem questionar a todo tipo de comando e crédula ao limite por jamais ter sido confrontada com a diversidade e com um ideário divergente – folgo em informar que já dispomos de uma versão contemporânea dos comprimidos de soma. Eles atendem pelo nome de ‘gadgets’ eletrônicos. Como não se poderá mais recorrer no futuro aos psicólogos e outros profissionais da área de Humanas para lidar com as eventuais frustrações, conflitos intrapsíquicos, problemas de identidade de gênero, etc. das novas gerações, basta lhes garantir presença diária nas redes sociais para encontrarem soluções curativas de seu desejo de rebelião, dialogando com seu amado Grande Irmão.

Pode ser ainda que, ao se darem conta de que, além de Paulo Freire, também outros nordestinos, como o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, a psiquiatra alagoana Nise da Silveira, o advogado baiano Rui Barbosa e o economista paraibano Celso Furtado se destacaram internacionalmente em áreas que não a sugerida Agronomia, Suas Excelências acabem concordando em alterar de vez o nome do MEC para MAC: Ministério do Adestramento e da Coisificação da cidadania brasileira.

Nada mais justo e coerente com os novos tempos de cólera e irracionalismo.

 

*autora, tradutora, colaboradora do blog BrasilDeLonge e… caetanista
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