Myrthes Suplicy Vieira, colocando os pingos nos ii !

Colocando os pingos nos is

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Escrevi recentemente um artigo para o blog do IECC intitulado ‘Torço para que NÃO dê certo’. Fiz isso de caso pensado, depois de muito refletir sobre o estado de profunda divisão ideológica em que se encontra o Brasil, as sombrias perspectivas econômicas e o desmantelamento proposital de um sem número de projetos educacionais, culturais e sociais.
Era minha forma de protestar contra o silêncio das pessoas que elegeram Bolsonaro alegando não terem tido outra opção para se livrarem do lulopetismo. A falta de reação dessa fatia do eleitorado diante do avanço de projetos polêmicos, como a liberação de armas para a população civil, aprovação de um número recorde de defensivos agrícolas condenados em outros países e, em caráter especial, das manifestações estudantis contra o corte de verbas das universidades federais, me incomodava muito. Queria também conhecer os argumentos para manutenção da confiança no governo após praticamente cinco meses de inatividade, idas e vindas atabalhoadas na apresentação de projetos ministeriais, os virulentos embates com o congresso e o recurso às redes sociais como forma preferencial de comunicação com a população.
Sabia, portanto, antes mesmo de escrevê-lo, que causaria muita polêmica e que eu seria alvo de muita crítica. Para meu espanto, o blog não recebeu um único comentário. Na dúvida se isso se devia ao constrangimento de se expor num ambiente escolar comum ou se era derivado do desconforto de estar alinhado com um projeto governamental que essas pessoas não endossariam em outras circunstâncias, pedi à Wilma que o postasse em sua página no Facebook.
A reação foi surpreendente: mais de 30 pessoas aceitaram sair das sombras e manifestar suas posições. Não posso reclamar da ferocidade de algumas críticas que o texto recebeu. Eu havia me proposto a dar a cara a tapa conscientemente, como forma de estimular o aprofundamento do debate político, e estava recebendo o troco. Deixo claro que, por mais duros que fossem os comentários, não me abalei emocionalmente. O que me horroriza é o que relato a seguir.
Com raríssimas exceções – só uma pessoa se dignou a listar seus argumentos de defesa dos projetos do presidente e só dois viram pontos positivos em minha análise – os demais comentaristas preferiram continuar agindo como torcida organizada, ora repisando o argumento de que, por pior que seja o quadro atual, ele é preferível à volta da corrupção e do caos social, ora tentando me desqualificar para a discussão por eu ser supostamente “de esquerda” ou estar frustrada com a eliminação do ‘meu candidato’.
A dificuldade em abrir mão de rótulos, escapar do maniqueísmo intelectual, desistir da dicotomia entre esquerda e direita e entender que o viés ideológico não é apanágio das esquerdas, parece continuar imprimindo sua marca perversa entre nós mesmo após o fim da campanha eleitoral, ainda que aparentemente tenha perdido um pouco de seu fôlego.
Na tentativa de prosseguir estritamente com o debate de ideias a que me propus, devo informar a meus detratores que nunca fui ativista política, jamais votei em Lula, Dilma ou Haddad, e sempre me esforcei em identificar e apontar os desvios éticos do Partido dos Trabalhadores. Se alguém duvidar, basta acessar os muitos artigos que escrevi desde 2012 para blogs de amigos meus e as postagens em minha página do Facebook. O Google pode os ajudar nessa pesquisa.
Não que isso importe em última instância para um debate bem-informado sobre o atual governo. Sempre fui simpática aos ideais humanistas, pacifistas e iluministas, como os contidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU: promoção da dignidade de toda pessoa humana, não-discriminação com base em gênero, idade, classe social, denominação religiosa ou falta dela, orientação sexual ou etnia. Além deles, luto pela preservação da natureza, pelo desarmamento, pela conciliação dos povos do mundo todo e pelo acolhimento de refugiados. Sou radicalmente contra a ditadura (seja ela de esquerda, de direita ou de centro, militar ou civil), a tortura, a violência policial e o populismo assistencialista dos ‘salvadores da pátria’. Se isso significa ser de esquerda, certamente mereço e aceito o enquadramento.
Passei toda a minha vida profissional entrevistando pessoas – seja trabalhando com Recursos Humanos, seja atuando como pesquisadora de mercado e opinião pública (o que, obviamente, inclui as pesquisas eleitorais) –, tentando entender o que as move e o que as comove, levantando suas expectativas de vida melhor e escarafunchando seus medos, seus sonhos, suas visões de cidadania e participação política.
Conversei incansavelmente por mais de 20 anos com eleitores de todas as faixas etárias, graus de instrução, classes sociais e orientação político-partidária, nas principais cidades do país, ao longo de diversas campanhas eleitorais, tanto para o executivo quanto para o legislativo. Graças a isso, acredito ter recolhido um abundante material relativo ao modo de pensar e às motivações eleitorais características do brasileiro médio.
Ao longo de todo o período da ditadura militar, li tudo que me caiu nas mãos sobre a atuação de governantes, parlamentares, militares, agentes públicos de segurança, civis e empresários envolvidos na repressão, desde ‘1964 – A Conquista do Estado’ e ‘Brasil: Nunca Mais’, até os relatos de torturas, desaparecimentos e mortes coletados pela Comissão Nacional da Verdade. Acompanhei desde muito cedo a carreira política de Bolsonaro – e foi exatamente com base em seu repulsivo comportamento de desrespeito a colegas parlamentares mulheres e gays, além de seus elogios a notórios torturadores, como Brilhante Ustra, que decidi me abster de votar no segundo turno das últimas eleições. Há poucas semanas, me dei inclusive ao trabalho de ler trechos da obra ‘A Verdade Sufocada’, recomendada por Bolsonaro como leitura obrigatória de cabeceira para entender a história do país. Confesso que não consegui passar das primeiras dez páginas, tal o asco que tomou conta de mim.
Sinto-me qualificada, portanto, para manifestar com total destemor meus pontos de vista negativos quanto ao atual governo. Aos que sugeriram que eu faça tábula rasa de tudo que aprendi com as atrocidades cometidas durante os anos de chumbo e escolha amar o Brasil ou deixá-lo em definitivo, só posso dizer que, para mim, o amor à pátria vai infinitamente além do respeito à nossa bandeira e hino nacional.
Tentar de todas as formas ao meu alcance impedir que meu país seja arrastado numa aventura inconsequente e se afogue novamente numa torrente de ódio, exclusão e irracionalismo é algo que considero meu dever de cidadã. Quem partilha de outros valores, quem acredita que o Brasil pode ser guindado de volta aos trilhos de um futuro promissor através do atual projeto governamental, por favor indique sem meias palavras, por escrito, de quais maneiras alguém pode continuar torcendo para que ele dê efetivamente certo.

Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Myrthes Suplicy Vieira, colocando os pingos nos ii !

  1. Cláudio Salvador Buono disse:

    Mirtes : Li seu artigo de desabafo.
    Observo que o que é divulgado de Bolsonaro é sobre o que ele fala e pensa. Nada se diz sobre o que ele fez ….pouco , é verdade , mas nada é divulgado. …Mas acho que o mais importante é o que ele faz. e não o que ele diz…é estabanado, concordo, mal preparado , mas o que e fez de errado até agora de ações , de atos , que prejudicaram o país ? …
    Se fôssemos analisar palavras do Lula , Dilma , Haddad e outros seres provenientes do PT , veremos belíssimas palavras , muitíssimo superiores em pensamento e ideias paradisíacos do que as de Bolsonaro. Agora me diga : qual a imensa , a enorme , a cósmica distância entre as palavras do PT e Cia. e suas ações ??
    Então proponho que , antes de julgarmos o governo de Bolsonaro por suas palavras ( asquerosas no seu ponto de vista, algumas concordo ) , vamos aguardar as suas ações , que para a governança e para a população são muito mais importantes do que suas palavras. Até agora pouco fez , bloqueado totalmente por essa Constituição demoníaca que serve somente aos corruptos de alto poder econômico…
    E esperamos que a mídia , totalmente desacreditada , divulgue.

    Obrigado.
    Cláudio.

    • msuplicy disse:

      Pois é, Cláudio. O meu propósito é exatamente abrir espaço para discutir o que Bolsonaro fez até agora no cargo de presidente e como as poucas coisas que fez em 5 meses podem impactar seriamente o futuro do Brasil. Só para ficar em um exemplo, que considero o mais grave, o corte de verbas para a educação de nível superior (não importa o tamanho dele e se ele vai de fato ser revertido), a exclusão dos cursos de filosofia, sociologia e humanas (sob a alegação de que “não dão retorno”), o não-investimento dos recursos cortados na educação de base, como prometido. Há muitos outros pontos que adoraria debater, como: a proposta de utilização das terras indígenas para produção agropecuária, a liberação recorde de agrotóxicos, a autorização para exploração de minerais na Amazônia, etc. Além disso obviamente prejudicar nosso desenvolvimento sustentável, o Brasil perderá muito $$$ no comércio exterior, já que outros países se oporão violentamente a continuar negociando conosco. A descontinuação do ministério da cultura e do trabalho e a extinção de mais de 800 conselhos também me parecem atos sobre os quais a população deveria poder opinar. Isso sem contar que ele está tentando de todas as formas governar sozinho, hostilizando o congresso e demonizando o judiciário e a imprensa – como se só ele tivesse decência e legitimidade. Mesmo tendo se retratado ontem na declaração de que o problema do país é a classe política, está mais do que claro que o que ele busca é que “o povo” (não toda a população, apenas a parte dela que o apoia) lhe conceda poderes absolutos – o que se traduz no dicionário como ditadura. Se a constituição de 88 lhe parece demoníaca, que tal sugerir a convocação de uma assembleia constituinte, fora do congresso, para reescrevê-la?

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