Yara Camillo, aliás, Mara; e eu, aliás, Mirna!

ELA ME FAZ MELHOR

Na primeira vez que Mirna, naqueles encontros de formandos muitos anos depois, falou sobre os ex-caetanistas e me incluiu na lista, esclareci que não, eu não tinha estudado no Colégio Caetano de Campos.

E Mirna: nossa, mas eu jurava que…

Pois é, expliquei, quase tinha conseguido uma vaga, através de um conhecido de mamãe, mas não. Mirna corrigiu a errata em seu blog e ressalvou: eu não era caetanista, mas em compensação tinha vencido com louvor o concurso A mais bela voz colegial, derrotando o representante de uma cidade interiorana com unanimidade de jurados e platéia. Tornei a esclarecer, dessa vez por e-mail: Mirna, querida, quem participou do mais bela voz foi uma prima (que se parecia demais comigo, a ponto de nos julgarem gêmeas), perdendo na finalíssima para um garoto do oeste paulista, lindo de morrer, como dizíamos na época, e houve até um caso entre os dois, coisa rápida, mas marcou a coitada de um jeito. Com o tempo, quase fui me acostumando às erratas de Mirna, que publicava na internet com uma frequência surpreendente, a despeito de seu problema crônico de leitura e sua miopia avançada. Eu – jovem escritora iniciando participação em sites literários e antologias e saraus e tudo isso – me importava, e como, com as informações que saíam a meu respeito, não era só uma questão de ego, mas também uma vontade quase pura de que as coisas corressem bem. “Que la vida te salga bien”, como dizia meu avô conterrâneo de Cervantes. Eu queria isso. Não queria o que não fosse meu. Nenhum sonho de milhões de livros vendidos, o que até me soava de mau gosto. Queria estar de acordo comigo. Que viessem as dores, as dificuldades todas. Queria uma quase certeza de que as coisas tinham um sentido, de que eu estava próxima de mim. Mas Mirna me distanciava de novo do que eu era ou pensava ser… A terceira errata foi mencionar, em outro artigo, dessa vez sobre os anos setenta, que “quando reencontrei Mara, ela devia ter vinte e poucos anos e apareceu na escola J. G. Fagundes, onde eu trabalhava; ela era uma fada: de dia lecionava e à noite fazia parte do elenco de Sonho de uma noite de verão, sob a batuta de Antunes Filho.”

Desisti.

Em vez de me aborrecer, comecei a me divertir. Mirna me fazia melhor, copidescava meus passos, me levava a Shakespeare e Antunes. Eu devia ter mesmo uns vinte anos quando fiz um teste para a remontagem de Hair, sonhava em fazer a personagem que cantava “Frank Mills”, mas sempre fui uma negação total nessas coisas e recebi do diretor a clássica dispensa: muito obrigado; qualquer coisa, telefonamos. Claro, obrigada, boa noite e uma vontade de chorar, maldizer a insegurança que sempre me levava pela mão.

As erratas seguintes não foram menos cômicas ou absurdas. Fui percebendo que eu não era eu, ao menos para Mirna. A pessoa que ela via em mim não existia, ao menos para mim… a principal interessada? Eu ia deixando de me interessar pelos equívocos e artigos de Mirna, ia também ganhando algum terreno nas teias da net, um conto ali, um fórum num dia, uma oficina no outro, o primeiro livro (que Mirna chamou de “Hiatos”, coincidindo estupendamente com o título real, embora sua resenha sobre o conto que dava nome ao livro fosse outra ficção), a sequência de um movimento que eu tanto havia chamado e que enfim começava a imprimir seu ritmo às coisas, aos trabalhos, aos dias, a mim.

Passou-se um bom tempo sem que eu pensasse em Mirna e assim teria continuado, não fosse agora esse artigo que me chega por um aluno, “professora, que loucura, eu sabia que isso existia nos tempos de Hemingway e Tennessee, mas, nos dias de hoje…! Chego a pensar que foi brincadeira de algum amiga sua… Será? Veja e me diga. Chega a ser engraçado…”

Abri o anexo, mas não queria ler assim, de imediato. “Com Deus, nunca se sabe”, pensei, lembrando um conto de Adolfo Castañón. “Com Mirna também não.”

Olhei pela janela do avião, a irrealidade das nuvens, daquele nuvial sem fim que sempre me encantava. Lembrei, não sei por que, Breton: “É preciso ter filhos com algo de nuvem.” E voltei os olhos para o artigo aberto na tela do tablet: “Mara nas alturas” era o título. “Dessa vez Mirna acertou”, pensei, com um nervosismo que minha tentativa de humor queria tapear. “Estou mesmo nas nuvens.” Mas não por muito tempo, dizia o artigo de Mirna, publicado (talvez por engano, tinha que ser um engano) num site literário. Mirna, sempre Mirna narrando o lamentável desastre aéreo onde eu supostamente teria voado desta para a melhor, na companhia de quase duzentos passageiros; as causas do acidente ainda eram desconhecidas, mas que diferença faria se não fossem, “quando todos os nossos olhares se voltam para a irrecuperável perda…”

Fechei o arquivo, apaguei a mensagem do aluno que certamente me imputava um senso de humor que eu não possuía. Não. Eu não podia achar a menor graça no fato de uma pessoa ler seu próprio necrológio, ainda mais se essa pessoa fosse eu.

O comandante anunciou o princípio da descida e fiz menção de desligar o tablet, mas então senti uma premência absurda de escrever sobre Mirna, de listar seus equívocos e, como no tempo em que estudávamos no Caetano de Campos (quando a professora nos mandava traçar duas colunas na página do caderno e relacionar palavras e desenhos), comecei a escrever o mais depressa que podia, como fez minha prima quando me deu a letra daquela canção que defendi no concurso A mais bela voz colegial, ela sem voz alguma, gripadíssima e não dava tempo de mudar o nome da candidata, então fui eu, com risco de ser, de sermos ambas descobertas e tudo se perder, mas, se não venci o concurso, valeu o medo, valeu tudo e também não foi assim uma derrota, não se pode perder de um deus como era aquele menino, minha nossa, já naquela hora eu sabia que nunca mais veria outro como ele, teria outro como ele em minhas mãos, em mim, e se fiquei assim avariada pelo resto da juventude e agora da quase velhice, não me arrependo não, porque ele cantava muito. E perder para um deus é ganhar de todos os homens, foi isso que disse minha prima naquele dia e eu achei tão bonita essa frase que hoje me soa besta, besta.       (Uma aeromoça vem caminhando pelo corredor, parece ter algo a me dizer, mas agora não quero falar com ninguém, moça, podemos deixar para daqui a pouco, um minuto apenas, é só o tempo de concluir esse texto, tenho perdido o fio da meada com tanta facilidade, ultimamente.) A gente reclama do tempo, que nos envelhece, mas que bom que ele faz passar também o que dói, não me lembro de um inferno pior do que a época de Sonho de uma noite de verão, a felicidade que em algumas semanas de ensaio se desfez em crises contínuas e o problema era todo meu, claro, e acho que encontrei Mirna naqueles dias, num colégio onde lecionei, que alegria, que coincidência, então você trabalha aqui? Sim, e você, o Teatro? Passei no teste para Hair, ficarei mais um mês com Sonho. Que pena, sua fada é fantástica. (Não terei tempo de escrever sobre o meu primeiro livro, a aeromoça parece que tem asas nos pés, vem flutuando pelo corredor numa velocidade diáfana mas também assustadora, não, mas o que houve, alguma coisa a fez recuar, está voltando sobre os próprios passos, mas não parece fazer isso por si mesma e sim por alguma força diferente, será a minha? Terei uma vontade tão poderosa assim, como escreveu Mirna ao comentar o desfecho de Hiatos?)

“Para o pouso, as luzes serão reduzidas”, anuncia uma voz, mas será preciso reduzir tanto? Isso não é penumbra, mas escuridão, pura escuridão e não sei onde foi parar o meu tablet, nem a aeromoça voadora, nem as nuvens lá de fora, as nuvens de Breton, a força da gravidade parece ter nos abandonado e quero só ver o que Mirna vai dizer de tudo isso.

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Mara-Yara, Chapéuzinho Vermelho, no TIMOL, quando pequena e….
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Image result for quero a lua timolMirna-Wilma,  bobo-da-corte, no TIMOL quando pequena…
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