Renato Castanhari Jr. – CAUSOS DE CARNAVAL

CAUSOS DE CARNAVAL

por Renato Castanhari Jr.

Ainda não tinha superado os efeitos colaterais da última passagem de ano e os amigos me convidam para o carnaval na capital com direito a abadá no Bloco Virgens do Minhocão. Não, não sei se vou, não… Só de lembrar do meu mais recente porre, melhor ficar quieto em casa e ver o desfile da Unidos da Netflix.
Meu último porre? Não contei? Humm, é, não contei mesmo, pra ninguém. Também, me lembro muito pouco do que aconteceu. Estava com a turma na praia, pulando as sete ondas (acho que foram bem mais, nessa hora minha memória já falhava) debaixo da queima de fogos, os mais acalorados mergulhando de roupa e tudo. Me passaram uma garrafa de espumante, dei um gole longo, passei a garrafa quase vazia pra Aninha e daí pra frente já começa ficar tudo nublado. Devo ter apagado na areia. Agora, se apaguei na areia, como fui acordar perto do apartamento que a gente alugou, quase amanhecendo, com uma garrafa na mão e um cacho de uvas?
Perguntei pros meus amigos, ninguém me viu saindo. A Aninha disse que me viu, um tempo depois, pegando uva de um despacho, devia ser pra Iemanjá, o champanhe que eu estava na mão era de alguma pomba-gira, com certeza.
Não, não ia arriscar outra dessa, ainda mais no carnaval. Eu quase não bebo, mas um pouco a mais me transforma em outra pessoa e aí é que mora o perigo. Essa outra pessoa bebe pra cacete!! Não, já basta o mico do carnaval passado.
Não contei do carnaval passado?? Foi punk!
Eu vinha de um período de trabalho bravo, sem tempo pra nada, só cobranças, pauleira, horas extras, um sufoco. Chegou o carnaval e eu me prometi relaxar, dar um tempo para me divertir, zoar, fora daquele estresse do ambiente de trabalho. Meu chefe deve adorar o carnaval, passa o ano inteiro cheio de máscara, fazendo a gente pular miúdo. Agora era hora de pular de verdade, pegar uma gata que fizesse todas as minhas fantasias. Quando eu disse isso para o Paulão ele prometeu me apresentar para a costureira da escola de samba. Eu agradeci, mandei ele à merda e embarquei no grupo que ia desfilar na Sapucaí. O Paulão é do tipo que bebe até cair. Aí ele continuava, deitado mesmo. E eu fiz a besteira de tentar acompanhar. Tentar.
Nossa ala no desfile era dos Super-Heróis. Achei o máximo, minha fantasia era do Batman.
A ida de metrô para a Sapucaí já foi superdivertida. Seu eu tivesse bebido o que o Paulão bebeu, já estaria bebendo deitado. Todo mundo na maior animação, nosso vagão tinha todo tipo de fantasias, de todos tamanhos e cores: super-heróis, arlequins, onças, baianas, uma festa! A Paulinha, que o Paulão me apresentou, estava na minha ala, de mulher gato. Uma delícia, simpática, descontraída, super bem-humorada. Percebi que ela estava entrando na minha quando uma outra menina passou pela gente com um shortinho minúsculo e camiseta com uma estampa que dizia “A vida pode não estar fácil, mas eu !”. Eu dei uma olhada meio automática no shortinho, na camiseta, e ela com o indicador me desviou o olhar para os olhos dela: – Eu posso ficar, sussurrou ela.
Eu já estava alto, não igual ao Paulão, mas já estava chegando naquele limite de pedir um dinheiro aí.
Chegamos na Estação Praça Onze e aquele bando de foliões começou a descer do vagão. Uma confusão, era fantasia que enroscava na porta, adereço de cabeça que não cabia e caia, gente apertada querendo fazer xixi, um rolo só. Alguns quarteirões e estávamos na Concentração. Nesse trajeto tumultuado, eu perdi a Paulinha, só o Paulão do meu lado, bebendo, claro.
Passamos por um cara fantasiado de Cereal Killer muito engraçado. Não, não era Serial Killer, era Cereal mesmo. Uma túnica cheia de caixas de cereal coladas, Sucrilhos, Corn Flakes, furadas, com “sangue” escorrendo dos furos, o máximo.
Chegamos na Concentração e parecia um gibi da Marvel, DC, uma Gotham City tropical. Imediatamente dei uma escaneada à procura da minha mulher gatona.
Pode ter sido efeito da graduação alcoólica além do limite, do lance de descontrair, realizar as fantasias de um trabalhador estressado, mas eu juro que vi a Paulinha, de costas, logo à minha direita.
Fui chegando devagarinho, dei um apertãozinho carinhosinho na sua bundinha e, bem coladinho na sua orelha, sussurrei: Oi gata, seu morcegão chegou.
Ela virou. Não era a Paulinha. Pior, o Super Men estava ao lado dela. Pior, o Super Men era o marido dela.
O efeito foi mais ou menos do último réveillon. Não lembro do que aconteceu depois.
Não, melhor não desfilar no Virgens do Minhocão.

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