Myrthes Suplicy Vieira: “Pararrespostas”; e minha “paraquestão”

Pararrespostas

Desde que a infame polarização político-ideológica teve início neste país tão desigual, outro condenável hábito veio juntar-se ao pensamento maniqueísta dominante e começou a prosperar entre nós: o recurso às pararrespostas para eximir-se da responsabilidade pelas próprias opiniões, escudando-se nos aspectos circunstanciais de cada situação.

Isto é, ao invés de oferecer uma resposta objetiva e direta a questões como “você concorda com..?.”, “você aprova…?” ou “você é a favor de…?”, muitas pessoas optam por fazer comentários genéricos de indisposição com fatos desagradáveis do cotidiano ou abordam aspectos secundários do evento em questão, que guardam pouca ou nenhuma relação com a pergunta feita.

Exemplifico para melhor entendimento. Há poucos dias, um grupo de policiais militares foi acionado pela diretora de uma escola pública de SP para retirar um aluno que se recusava a sair da sala. Imagens feitas pelo celular de colegas mostram um PM agredindo o aluno e outro apontando uma arma para a cabeça de um grupo de adolescentes que se aglomeravam no corredor para testemunhar o fato.

A polêmica logo se arrastou na Internet, como um rastilho de pólvora. Centenas de pessoas prontificaram-se a emitir opiniões, alinhando-se automaticamente a um dos lados do conflito.

Comentários do tipo “Boa, parabéns PM, esses bandidinhos agridem professores, matam colegas, não respeitam mais ninguém”, ou “Estudar que é bom ninguém quer, o cara nem estava matriculado no curso”, ou “Se a diretora chamou a polícia, boa coisa esse garoto não estava fazendo. Não é justo afastar ela, ela só estava defendendo os outros alunos que
queriam estudar”, ou ainda “Tudo agora é culpa da polícia. Os caras ganham mal, são mal  treinados, estão estressados e as pessoas ainda reclamam da violência deles? Queriam o quê, que eles levassem flores?” encheram as redes sociais, inaugurando mais um espetáculo dantesco de discriminação e intolerância.

Embora seja perfeitamente possível a qualquer analista inferir para que lado pende empaticamente a pessoa que comenta dessas formas, não há em nenhum dos casos a apresentação de um argumento capaz de abarcar globalmente o evidente contexto de desequilíbrio de forças. O ponto fulcral da questão permanece intocado, qual seja: à luz da escala pessoal de valores de cada um, está correto uma pessoa armada desferir socos e pontapés em outra, já dominada e caída ao chão? Independentemente da idade, sexo,
escolaridade, classe social, profissão, capacidade de equilíbrio emocional e experiência anterior em lidar com conflitos, é legítimo apontar uma arma para a cabeça de circunstantes desarmados?

As respostas dadas envolvem normalmente um pré-julgamento quanto à intenção de cada uma das partes para agir como agiu, bem como um enquadramento preconceituoso do perfil psicossocial do oponente que justifique o emprego de recursos mais ou menos violentos para pôr fim ao confronto. É como se, ao invés de responder sim ou não, a resposta fosse sempre um “depende”: se o outro é uma ‘pessoa de bem’, está errado usar de violência para contê-la, mas, se ele é presumidamente um ‘mau caráter’, está correto empregar força desproporcional.

Ainda que nesse pré-julgamento estivessem contidas algumas ‘verdades’, a lógica continuaria a ser tortuosa. O que se omite e que precisaria ser esclarecido de forma contundente é se há ou não um imperativo moral categórico dentro de cada pessoa que a impeça de se desviar de seus próprios princípios de conduta ética. Se há, não é possível abrir exceções para acomodar casos especiais. Se não há, então o arbítrio vai prevalecer em todas as ocasiões de animosidade na sociedade.

Essa relativização dos valores e dos direitos humanos não é, infelizmente, exclusividade dos casos que envolvem conflitos entre cidadãos e forças de segurança. Aplica-se também, sem disfarce, a todas as demais formas de desequilíbrio de poder inseridas na relação homem- mulher (feminicídio, assédio), adultos e crianças (pedofilia, infanticídio), nas divergências de cunho racial/étnico, religioso, de identidade de gênero, etc. Os projetos de tratamento diferencial/preferencial multiplicam-se e invadem a esfera do legislativo e do judiciário (excludente de ilicitude, manutenção do foro privilegiado, fim de direitos trabalhistas, abertura de reservas indígenas para mineração em nome do desenvolvimento e outros que tais).

Pior, culpabilizam-se as vítimas e inverte-se o ônus da prova. Quem nunca ouviu alegações de defesa do tipo: ‘Matei porque eu amava aquela mulher, mas ela me traiu’, ‘Apesar dessa garota só ter 9 anos, ela sabia muito bem o que estava fazendo, era ela que me provocava’, ‘O bebê estava chorando muito e não me deixava dormir; perdi a cabeça e joguei ele no chão’, ‘A jornalista queria dar o furo contra mim’? A mensagem é clara: manda quem pode, obedece quem tem juízo. A roda da fortuna virou, espere a sua vez.

A culpa é sempre do outro, está do lado de fora em qualquer circunstância. Nós apenas reagimos a um estímulo insuportável. Os erros de terceiros justificam emocionalmente os nossos e nos eximem de responsabilidade pelo destempero. Os erros do passado justificam os erros do presente em direção oposta. Estamos de volta às regras do primeiro código civil da história da humanidade, a Lei de Talião. Vivemos a era do ‘se a farinha é pouca, meu pirão primeiro’.

O que subjaz a essa mentalidade? Aparentemente, ela é decorrente do individualismo exacerbado, da fragmentação social em função das lutas identitárias e das feridas narcísicas que deixam um gosto de humilhação em nossas bocas. É consequência direta do empoderamento das minorias e da sensação de impotência para reverter a perda de poder viril, dado que o final do ciclo do patriarcado já se anuncia como próximo.

Acima de tudo, a meu ver, ela se deriva da incapacidade de introspecção, típica da modernidade líquida que dissolve todas as nossas certezas e nos devolve a um mundo de inseguranças. Estamos tão alheios ao que se passa em nosso interior que, se as figuras de poder nos prometem proteção, melhor nos parece aderir a elas acriticamente, em vez de enfrentar a dor de um exame honesto e desapaixonado de consciência. Ninguém quer mais
correr o risco de constatar que suas motivações não são tão altruístas ou nobres quanto gostariam de imaginar.

Ferreira Gullar estava certo: só existe generosidade onde há utopia.

Paraquestão: Protegemos pessoas de bem ou apenas pessoas de bens? – wilma

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