METADIÁRIO do Renato Castanhari Jr.

DIÁRIO DE BORDO 9

Esses dias de reclusão me deram tempo de colocar uma ordem nas coisas em casa. Armários, gavetas, tudo é motivo para ocupar o tempo e não pensar no que anda acontecendo. Em uma dessas arrumações, acabei descobrindo o diário do meu avô, uma figura folclórica na família, inesquecível. Nasceu em 12 de agosto de 1903 e veio a falecer em maio, de 1976. Claro que na famiglia todos sabiam de cor as histórias do nono Giovanni, mas quando trazemos alguns trechos da sua vida para os dias de hoje, parece que o que estamos vivendo não passa de um final de semana complicado perto do que ele viveu. Boa parte do diário está em italiano, mas vou tentar passar para o português para quem ler entender melhor.

Primeira Guerra Mundial – 1918
“Por que??? Por que não nasci em 99. O governo convocou agora todos os ragazzi del’99, só o Carlo pôde ir lutar contra esses canalhas austríacos, merda! Eu tenho que ficar aqui com a mamma e as meninas!!! Eu não sou menina!!! Quero estar no navio junto com o Carlo para invadir Trieste!! Porcalamiseria!!”.
Gripe Espanhola – 1918
“Madona! A guerra acabou, mas a gripe não acaba, parece que piorou, está morrendo todo mundo, Dio mio!! Isso só pode ser coisa desses alemães maledetos que estavam perdendo a guerra e criaram esse micróbio para matar os aliados. O Carlo me disse que vários amicci dele morreram na trincheira com febre e tosse.
O zio Antônio começou a espirrar de noite, de dia estava morto, ficou com a cara azul, saiu até sangue do ouvido, eu vi!! A mamma disse para não sair de casa, não ficar perto de quem está tossindo, comer o mingau toda hora, mas eu não aguento mais. Sai escondido para encontrar o Bruno, tive que correr de volta para casa. Tinha vários mortos na calçada, o caminhão pegando eles e amontoando, um em cima do outro, acho que vi um se mexer, mas o homem deu com a pá na cabeça dele!! Dio, ma o que está acontecendo!!!
Acabei de lavar as mãos. A mamma disse que é para fazer isso toda hora, e lavar o nariz também. Eu queria fazer alguma coisa, ma não tem niente per fare. Não dá para jogar bola, desde que a guerra começou não teve mais jogo, a escola fechou, o cinema também. Acho que estou ficando com dor de cabeça!!!”.
Quebra da Bolsa – 1929
Ma que vida maledeta!!! Deixo a minha Itália, o pappa, a mamma, cruzo o oceano para tentar a sorte no país do futuro, com tutto per fare, me caso com uma brasileira, viro pappa e uns anos depois, o que acontece??? Nuova Iorque quebra! Putalamerda!!!! O preço do café caiu, despencou!! E o patrão não vai conseguir pagar a gente, vamos ser dispensados. E agora? Com uma donna, um bambino e sem emprego!!!! Dio mio!!”.
Revolução Constitucionalista – 1932
Ma noné possibile!!! Consegui meu emprego na lavoura de volta e São Paulo abre guerra contra esse maledeto do Vargas!!! Estão indo de voluntário com o exército paulista batalhar na fronteira. Ma perché mataram os quatro ragazzi? Agora vão invadir o Rio de Janeiro, madona!! Io non! Io non vou!!”.
Segunda Guerra Mundial – 1939
“Lembro da minha mãe me dizendo quando eu era pequeno, “Chi dorme non piglia pesci” e é verdade, não pega peixe mesmo quem dorme, a não ser que esteja dormindo na beiro do rio com a vara na mão. Ma io nunca dormi sem ir à luta, sempre tentei, lutei, enfrentei as dificuldades de frente, caindo e levantando. Ma ora, io non sei se vou aguentar. Mio bambino, Franco, embarcou para a Itália lutar na guerra. Na minha Itália, o meu figlio, madona!! Há vinte anos eu sai de lá, depois de uma guerra e uma pandemia. E meu figlio vai para lá lutar na guerra, Dio mio!!! Per ché Senhor??? Per ché? Tanta coisa difícil já aconteceu na minha vida, agora isto. Per favore, Senhor, cuida do Franco e acaba logo com essa guerra!!!”.

E o meu pai voltou bem, foi um dos pracinhas que não perdeu a vida numa batalha idiota. Lembro que ele dizia que depois que ele voltou, ficou um bom tempo com medo de dormir, tinha medo de acordar na trincheira onde dormiu infinitas vezes. Dizia que não tem nada de heroico numa guerra, uma trincheira tem solidão, sujeira, frio, medo, fome. Matar alguém que não se conhece não é heroico, é triste, é uma escolha, ele ou eu.
Quando leio esses trechos do diário de bordo do meu avô, penso em quantas coisas a gente é obrigado a passar na vida. Coisas como ele passou e que nunca, jamais tiraram a sua vontade de viver, de sorrir para a vida, mesmo que ela não sorrisse de volta.
A humanidade já passou pela peste negra, varíola, cólera, gripe espanhola, gripe suína e não saiu melhor delas. Nem duas grandes guerras e centenas de outras menores serviram para que o ser fosse mais humano. Não sei se um novo vírus será capaz de mudar esse ego contaminado que temos e é transmitido, de gerações para gerações, em meio às guerras, quebra de economias, governos corruptos e pandemias.
Se o meu avô foi capaz de passar por tudo que passou, nós também seremos. No mínimo temos a certeza de passarmos desta para melhor.

Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores. Bookmark o link permanente.

4 respostas para METADIÁRIO do Renato Castanhari Jr.

  1. Marilia Estevão disse:

    Renato, adorei a iniciativa de compartilhar os trechos do diário do seu nonno. Geração sofrida a dele. Guerra, fome, doenças em pouco mais de 70 anos. Além da sensação de déjà vu, o trecho sobre a gripe espanhola só reforçou em mim o caráter circular do tempo. Os religiosos poderiam dizer que Deus de vez em quando costuma repetir suas lições para promover uma evolução nesse povinho difícil que habita esse planeta.

  2. Obrigada por participar ativamente do blog; abraço, wilma

  3. Obrigado, Marilia, Wilma, por passear pela Ladeira. A ideia é fazer um Diário de Bordo desse momento tão difícil que estamos passando, com os diversos cenários e seus personagens.

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