Renato Castanhari Jr

DIÁRIO DE BORDO 10

por Renato Castanhari Jr.

Oi mãe querida. Hoje está fazendo 3 meses que você se foi, não era “gripezinha” não, a coisa ficou feia depois da sua partida. O comércio todo foi fechado, só ficaram abertos os serviços essenciais como saúde, alimentação e segurança. Todo mundo em casa, se sair tem que andar de máscara, dirigir de máscara se não leva até multa, pode???

Por que, mãe, por que foi acontecer justo com você? sentindo a sua falta. Muita!! Mas resolvi fazer o que você falava pra mim, lembra? “Se vira menina, não vou estar aqui pra sempre, se vira!!”. Eu tentando. Aos poucos, mas tentando.

Acredita que já consigo esquentar o leite no micro-ondas??? Verdade!!
O quarto continua aquela bagunça, mas já melhorou um pouco. Lembra o que eu respondia quando você reclamava da bagunça? “Eu respeito a vontade das coisas ficarem onde quiserem, uai”, kkkkkk… Você me olhava daquele jeito que só uma mãe consegue, unir amor e ódio num olhar fulminante. Mas agora, estou levando os copos, os pratos pra cozinha, não deixo amontoar mais no chão, no criado. Ahhh, e estou arrumando a cama todos os dias, como você pedia. E eu não fazia.

O difícil ainda é lavar a roupa. Não consigo acertar a quantidade de sabão em pó, tem hora que fica umas crostas esquisitas, principalmente nas escuras. A tia Deni disse que é excesso de sabão, falou pra eu colocar pouco menos de um copo pra meia máquina. Já sei… já sei… “separa as roupas claras das escuras, cristo de Deus!!”. separando, separando!! Não precisa contar até três…

Ai, mãe… que saudade… Saudade dos seus carinhos, da sua voz, até das suas broncas!! Claro, saudade enooooooorme da sua comida. fazendo umas gororobas que… Meu Deus!!! Quando eu lembro que você dizia “Um monte de gente passando fome e você deixando comida no prato”, que arrependimento!!!

Já faz um tempo que não falo com o pai. Com essa quarentena, não tem jeito da gente se ver. Ele falou para eu ficar lá, mas não ia aguentar ficar trancada com aquela zinha… não ia dar, não tenho a sua paciência. Ele disse que ela que propôs, mas não acredito, ela também não vai com a minha cara, eu sei. Ele trouxe um almoço para mim outro dia, disse que ela preparou com o maior carinho. Quase não comi, mas a fome de comida boa falou mais alto. Já sei… já sei… “Toma vergonha nessa cara, Mariana”, mas a cara tava boa. E o pior que o gosto também, comi, pronto!

Ahhh, mãe, fiz outra tatuagem! Calma, calma, não estressa, é pequena, singela, e o motivo super justo. Eu tatuei seu nome, mãe. Você está sempre na minha mente, no meu coração, agora vai ficar na minha pele, “é pra me dar coragem, pra seguir viagem”.

Gripezinha… Essa gripezinha tirou a senhora de mim… Tem dia que eu acordo e vou no seu quarto ver se você já acordou. Não, não caiu a ficha ainda.

“O dia que eu morrer, vocês vão ver só”.

De novo a senhora acertou, droga!! Eu vendo, e não gostando nem um pouco. Tem hora que eu faço de conta que eu não posso te ver por causa da quarentena, como eu não vejo meu pai. Pelo menos, a senhora está em melhor companhia… tá bom… vou me esforçar em aceitar, prometo. “Aceita que dói menos”, certo, vou me esforçar.

Espero que o seu dia das Mães tenha sido melhor que o meu. Beijo mãe.

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