Prostituta é professora? – Blog do José Horta Manzano, BrasilDeLonge

Prostituta é professora?

Alice la Provençale. Lumière des Roses/adoc-photos

Dad Squarisi (*)

O verbete está no dicionário. O Google o reproduz. Alguém consulta o significado da palavra professora. Ops! A tela mostra: “prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual”. Grupos se mobilizam no WhatsApp. Querem que o site da internet apague a acepção que ofende as mestras.

Internautas emitem opinião. A maior parte dos comentários fala em injustiça, machismo, desconsideração com a classe, contribuição para aumentar o sofrimento das maltratadas profissionais. Etc. e tal. Não faltou quem comparasse o feminino com o masculino. Aí, a revolta aumentou. Na definição de professor, não se encontra nenhuma acepção negativa.

Revolta semelhante ocorreu há 20 anos. Lúcia Carvalho, então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, consultou o verbete mulher, no Aurélio. Encontrou 15 vocábulos sinônimos de meretriz. Entre eles, mulher-dama, mulher da rótula, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher de amor, mulher do mundo.

Dicionário Houaiss

E homem? No pai de todos nós, injustamente chamado pai dos burros, só aparecem significados positivos. Ela comparou homem da rua com mulher da rua. Ele é homem do povo. Ela, meretriz. E homem do mundo e mulher do mundo? Ele é homem de sociedade; ela, prostituta. A indignação da deputada foi tal que os protestos chegaram aos ouvidos de Jô Soares. O Gordo a convidou para o Programa do Jô. Ela foi. E daí?

O Aurélio, o Houaiss & cia. lexical são machistas? Devem ser condenados por registrar professora como prostituta? Ou por tratar tão desigualmente mulher e homem? Não. O dicionário é inocente. Ele sofre de incurável falta de criatividade. Incapaz de inventar, só anota as acepções que frequentam a boca dos falantes. Machista, discriminatória, injusta etc. e tal é a sociedade. O paizão repete o que ouve. É papagaio encadernado.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores. Bookmark o link permanente.

5 respostas para Prostituta é professora? – Blog do José Horta Manzano, BrasilDeLonge

  1. captgottlieb disse:

    Uma palavra no dicionário pode ter muitos significados, às vezes até conflitantes. Mas o que conta mesmo é a palavra na frase ou parágrafo, pois o significado dela será dado pelo contexto e este envolve vários fatores (assunto, época, costumes, moral, etc.). Assim a mesma palavra, dependendo do contexto poderá ter um sentido negativo, pejorativo, por vezes até obsceno, bem como um sentido positivo, elegante e até mesmo um elogio.

  2. Obrigada pela sua contribuição; abraços; wilma

  3. Marilia Estevão disse:

    Amigos,
    Função de dicionário é registrar os diversos usos presentes e pretéritos das palavras. Afinal, não vamos deixar de ler os clássicos, não é? Temos que ter muito cuidado com a invasão do politicamente correto, essa praga que vem calando os discursos e nivelando por baixo os argumentos e sobretudo o ensino da nossa língua. Querer que os dicionários cortem significados que não estejam de acordo com o que querem grupos sociais é uma das coisas mais ditatoriais que existem. Estamos vivendo tempos obscuros e não tanto por causa dos poderes constituídos, mas sim por uma censura impetrada por formadores de opinião que lucram de alguma forma com suas causas e que disseminam as ideias mais estapafúrdias “embaladas” como coisas nobres para a sociedade. Esta é uma delas. Li ontem, horrorizada, que o Netflix foi obrigado a retirar de seu catálogo o clássico E o Vento Levou por pressão de militantes da causa antirracista; os militantes dessa mesma causa no Brasil continuam pressionando o MEC a banir toda a obra de Monteiro Lobato por causa da personagem Tia Anastácia; instituições federais de ensino estão abolindo, em seus documentos, as desinências de gênero na palavra “aluno”, entre outras barbaridades (como se escrever alunx ou alun@ acabasse com o preconceito sexual). Enfim, a conotação pejorativa da palavra “professora” conviveu, por uma determinada época, com seu significado principal. Nada demais. Temos que aprender a dialogar internamente com produtores de conteúdo que eram pessoas de suas épocas e reconhecer-lhes a importância de registro da evolução da língua portuguesa. Um bom leitor é aquele capaz de compreender os diferentes significados das palavras de acordo com o contexto. Aquele que não consegue fazer isso é um analfabeto funcional (esta sim a maior tragédia da educação brasileira).

  4. Obrigada pelo texto; vai ser publicado com muito prazer no blog ieccmemorias.wordpress.com Abraços, wilma.

  5. Pingback: Marilia Estevão disse, em referência ao artigo “Professora é prostituta?”, de Dad Squarisi | Caetano de Campos

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