“Pandemônio” segundo dois articulistas caetanistas

Pós-crise

José Horta Manzano

A pesada crise provocada pela epidemia de covid-19 surge como inesperado revelador de realidades dormentes ou encobertas. Quando o tempo é bom, todo o mundo é capitão, todos sabem navegar. Quando o céu vem abaixo e o temporal desaba, aí é que são elas.

Nas bandas da oficialidade, o mundo está assistindo, entre surpreso e inquieto, à cena bizarra de holofotes iluminando líderes que não lideram. Se o distinto leitor voltou o olhar para os lados do Planalto, acertou. Nas altas esferas da República, o pandemônio faz companhia à pandemia. Leigos dão receita médica; médicos aconselham beijos e abraços em momento de contágio. Um mundo de ponta-cabeça.

Outras verdades, normalmente encobertas por véu pudico, vêm à luz. A solidariedade nacional corre pra ajudar os que têm menos. Mas primeiro precisa saber quem e quantos são. Constrangido, o governo reconheceu, a contragosto, que 70 milhões de compatriotas estão no grupo de trabalhadores informais. Setenta milhões! Esse imenso contingente representa quase metade da população ativa – um despropósito que, não fosse a crise sanitária, continuaria invisível aos olhos da outra metade dos ativos.

Não é um punhadinho de gente, é uma multidão. É gente que pode até ter família, mas não tem carteira assinada; que pode existir para o pastor, mas não existe para a Receita. Não é aceitável que metade da força de trabalho nacional opere nas sombras, como se abstração fosse.

Quando essa epidemia se acalmar, algo vai mudar. Tenho certeza de que doutor Bolsonaro, que, a estas alturas, já tomou ciência dessa desordem, vai agir. Preocupado que está com o bem-estar da população, vai dar início a um processo de reconhecimento do contingente oculto. Ficará na história como aquele que descobriu o outro Brasil. Ou não.

COLUNA MESTRA    – Mais Botucatu

Humberto Migiolaro                                  hmigiolaro@lpnet.com.br

PANDEMÔNIO

        A palavra soa meio assustadora, meio inquietante. Certo seria mesmo aterrorizante, pois abriga em suas sílabas finais o termo “demônio”, o inimigo, o anticristo, a encarnação do mal. Para complicar e assustar ainda mais as pessoas o vocábulo ainda vem reforçado pelo prefixo “pan”, o que multiplica o efeito maligno. O termo “pan” determina a pluralidade e extensão do sentido. “Pan”, de origem grega, é elemento de composição de palavras que trazem consigo a idéia de “todo, por inteiro”. Associe-se a malignidade representada pelo demônio, o capeta, ou coisa ruim, multiplicado pelo prefixo pan e temos um efeito potenciado de toda a perversidade que se queira expressar pela palavra. Ultimamente o termo tem perdido um tantinho de seu aspecto terrificante, talvez pela multiplicidade da repetição, ou vulgarização do uso indiscriminado. O mal nos parece menor quando se repete em escala de utilização de demasia. A verdade é que os próprios apologistas do Bem, de tanto insistir na citação da denominação do grande inimigo, assim como uma leve vacina, conseguem a banalização e a vulgarização do medo. Mas, vamos e venhamos, “Pandemônio”, como termo extremo, deveria se utilizar menos freqüentemente, para não lhe atenuar deliberadamente a força, abrangência, significado e seu objeto de temor.

Mas, esqueçamos a retórica lingüística e fiquemos com a essência pretendida pelo propósito. Pandemônio é “associação de pessoas para praticar o mal ou promover desordens e balbúrdias, citado pelo poeta inglês Milton (1608-1674) em sua obra máxima “Paraíso Perdido”, um clássico do Renascimento Britânico.

Esse é o tema, sentemos e apreciemos a demolição, atentamente, como renascidos Adoniran. Acomodemo-nos sorvendo britanicamente um chazinho inglês, tal qual faria Sherlock Holmes com seu cachimbo fumegante ao lado do onipresente, interlocutor (escada no termo teatral atual), seu “Doutor Watson”.

-“Aquele estranho e exótico pais, lá pelos lados da Argentina e do Uruguai vive estranhos momentos, meu caro Watson”.

Como se explicaria a crise criada pelos amigos do inimigo nas lindas paragens sob o céu esbanjando azul no mar de Itapoá, no doce balanço da garota do corpo dourado do sol de Ipanema, na Selva de Pedra plantada no planalto, no pano de fundo do amor incontido de Peri e Ceci, nos extremos que aproxima o encanto das ladeiras aos Pampas onde Veríssimo plantou “O Tempo e o Vento”? Não previram outros que a friagem do Rio Grande, o suave balanço da Garota de Ipanema, a doçura do morrer no mar de Caymmi, a Selva de Pedra plantada no planalto que o cenário do romance de Alencar se tornasse ribalta para o pastelão verde e amarelo que tenta ofuscar nossas cores balançando no pano e envolvendo o mastro como a se proteger de porta-bandeiras desautorizados?

Pandemônio está escrito, cuidado, não ler distraído “Pandemia”. Julio Gouveia diria fechando o livro no Sítio do Pica-Pau Amarelo, “Isso é uma outra história, que fica para uma outra vez”. Não, decididamente não vai ficar para “uma outra vez”. Creia e espalhe a boa nova. A “outra vez”, citada na velha telinha da Tupi será reapresentada aqui, agora, ao vivo e a cores, como diriam nos tempos da novidade.

Alto lá, mal pingados gatos de aldeia! O bloco vai passar, apesar de Chicos, Caetanos e companhia. Tanto cenário, tanta palavra, tanta luz de holofotes, tantas imagens e versos rolando nos neons das ribaltas, tanto esforço de elenco aprendendo, decorando, interpretando, se superando, tanta gente lotando platéias, cotejando poltronas com retardatários, tanta expectativa, tanta esperança e fé disseminadas. Não, certamente não, caro  Gouveia, caríssimos patriotas de verdade, não caíram e rolaram pelo vazio. O cavalo montado, o bonde passa, a linha do tempo rompe as revelias e firmemente avança..

A pátria mãe gentil não se assenta distraída, não se abestalha nos enredos das lideranças batidas e remetidas ao esgoto do tempo. Não foi por acaso que da caravela se gritou do alto do mastro “Terra à Vista”, quando, mais real seria “Terra a Prazo”, ao sabor dos encantadores de cordéis. Vai passar, tenha a mais pura certeza, Não há forma de alterar o texto traçado cuidadosamente, palavra por palavra. Cabral não chegou por sorteio, era ordem de El Rei. Já nos tempos criavam-se fantasias atrás das muralhas dos castelos e se vendiam a módicos preços ilusões e conveniências de momento. Pedro, ao cruzar o Ipiranga não ergueu em vão a espada, nem o grito careceu de megafone para ser ouvido pela tropa e pelo povo assombrado com a bravata. “Independência ou Morte” fez ressonância do Oiapoque ao Chuí, inventou-se essa coisa meio louca de brasilidade que parece se agigantar e se disseminar tocada pelo vento criteriosamente armazenado por Russeff.

“Independência ou Morte” ainda se ouve nos sussurros do planalto, nos veludos do Congresso, ditos assim de esgueira, escapados da boca mal fechada, disfarçando o rubor das faces calhordas. Outros, meio misturados, porem verdadeiros e silentes, seguem a bandeira do Bem e da Esperança. Vai passar a desfaçatez dos falsos diálogos dos “Brutus” de Brasília. A espada de Pedro retorna à bainha. O mastro da verdade sustenta e desenrola o pano oscilante das verdadeiras cores da pátria-mãe não distraída. Olhos de lince, garras de leão, panteras desassombradas se erguem no meio do gigante supostamente adormecido.

Inimigos, malfeitores e disseminadores do mal insistem em promover o caos. Cabral não navegou em vão, Izabel não libertou por acaso, Pedro não soltou sua voz para ressonar em sussurro. Amigos do alheio se esgueiram nos vãos do Congresso, nas Cortes Supremas dos apologistas do erro. Tentem o que quiser, não há como resistir ao Bem e à legitima Verdade. Bem a nosso lado olhos mais fortes observam atentos. Na cabeceira da pista o 14-Bis de Dumont ronca o motor. Aquietem-se, em breve venceremos esse maldito

PANDEMÔNIO.

 

BEM A NOSSO LADO OLHOS MAIS FORTES

          OBSERVAM ATENTOS

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2 respostas para “Pandemônio” segundo dois articulistas caetanistas

  1. Cláudio Salvador Buono disse:

    José Horta Manzano. Gostei do texto. Um dos poucos que não estraçalham com o Presidente , desajeitado mas honesto e com boa vontade , metido num calabouço com cobras e répteis que lá estão há 40 anos.

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