Myrthes Suplicy Vieira

Torpeza

 

 

Em um trecho de seu poema O Guardador de Rebanhos, Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Alberto Caeiro, escreve sobre Jesus Cristo encarnado:

“Nem sequer o deixavam ter pai e mãe, como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas: um velho chamado José, que era carpinteiro, e que não era pai dele; E o outro pai era uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe e nunca tivera pai para amar com respeito, pregasse a bondade e a justiça!”

Considero este o poema mais belo e emocionante de toda a criação de Pessoa, dentre tantas outras de suas obras-primas, uma verdadeira declaração de religiosidade, amor e de respeito à figura humana de Cristo, a despeito da iconoclastia nele contida. Para quem não entende este paradoxo, recomendo que leia o trecho final da passagem.
Mas não é só do contexto religioso que quero falar. Pode ser que eu seja a única pessoa no mundo a perceber na frase que destaco a síntese perfeita, mais emblemática e mais crua, do modo como o patriarcado encara há mais de 2.000 anos a ala feminina da humanidade, mas acho fundamental aclarar certas conceituações que o ideário patriarcal estabeleceu a respeito da feminilidade, que persistem e continuam a ser exploradas no século 21.
Antes de mais nada, é preciso lembrar que desde os primórdios da civilização humana a mulher vem sendo representada como um ser:

destituído de subjetividade (sem identidade própria, sem desejos e vontades que mereçam ser levados em consideração e respeitados),
desprovida de livre arbítrio (principalmente no que diz respeito ao próprio corpo e a seus direitos reprodutivos)
não habituada ao exercício da intelecção/da lógica (e, por isso mesmo, incapaz de reivindicar autonomia, predestinada a ser sempre dependente da tutela de um homem que lhe guie os passos), sem autocontrole para lidar com situações estressantes/de emergência e não-confiável para relacionamentos afetivos estáveis, dada sua volubilidade emocional.

Ao mesmo tempo, em vários contextos religiosos e científicos, o patriarcado insiste em pespegar na figura feminina o rótulo de malevolência sexual, consciente ou inconsciente, caracterizando a mulher como um ser que age sorrateiramente sempre com um quê de malícia, de sedução e fingimento para atrair o homem e retirar-lhe a paz interior, qualquer que seja sua idade, condição física ou seu status social.

Talvez essa pretensa intimidade com os truques e artimanhas sexuais esteja na base da crença patriarcal de que a mulher só pode ser legitimada socialmente através do casamento e da maternidade. Mesmo assumindo em paralelo que a mulher não desfruta do mesmo ímpeto ou imperioso desejo sexual do homem, reforça-se através dessa última caracterização a necessidade de vigiar, controlar e punir com o máximo rigor eventuais traições femininas.

O contrato nupcial adquire assim um caráter de documento de posse definitiva e exclusiva do corpo feminino. A mulher já não é um sujeito de pleno direito, mas transforma-se na “mala” a que se refere Pessoa. Pior ainda, ela passa a ser mero receptáculo anorgásmico do esperma de seu proprietário. A partir do momento em que o contrato é consumado, caberá apenas ao homem definir se e quando a mulher vai engravidar e parir os frutos do casal.

Por essas e outras, a maternidade antes ou fora do casamento passa a ser vista como tão inaceitável quanto admitir que a mulher possa decidir sozinha se quer levá-la adiante ou interromper a gestação.

Se todas essas restrições à liberdade de escolha feminina são assustadoras em si mesmas quando se referem a uma mulher adulta, é fácil imaginar a fúria moralista com que patriarcas e fundamentalistas religiosos reagem quando a “desonra” da gravidez indesejada é decorrente de intercurso sexual entre um homem adulto e uma criança do sexo feminino. Em primeiro lugar, aciona-se como desculpa a tese de que o impulso sexual masculino é incontrolável a partir de certo estágio da relação. Em segundo lugar e não menos chocante, apela-se para o comportamento “naturalmente” sedutor de toda menina como detonador do desejo masculino. O pedófilo estuprador acredita ver nos olhos, no sorriso ingênuo e na não-capacidade da criança de recusa do “carinho” o consentimento que lhe faltava para dar continuidade à prática.

A torpeza moral desse roteiro clássico é ainda mais agravada quando se considera que não são apenas os homens a absorver, defender – e protagonizar – a legitimidade dessas crenças. Muitas mulheres reagem com ainda maior virulência, se possível fosse, ao se posicionarem contra o direito ao aborto. As fundamentalistas religiosas, fingindo desconhecer que os códigos morais inscritos nos textos da bíblia cristã (muitos dos quais apócrifos, diga-se de passagem) refletem os valores dominantes nos primeiros séculos da história da humanidade, apresentam-se triunfantes como modernas defensoras da vida. Além de não se preocuparem em definir a qual “vida” deve-se dar prioridade (a do corpo ou a da alma), por conveniência ou pura desfaçatez fazem de conta que há apenas uma vida a defender e não duas (a do feto e a da mãe prematura), como é óbvio em todas as ocasiões.

Ao invés de focarem suas críticas e condenação raivosa no comportamento transgressor masculino, optam por relembrar a “culpa” de toda mulher ao ceder, voluntária ou involuntariamente, ao apelo do sexo. É exatamente isso o que se depreende das palavras de uma professora da rede estadual paulista ao comentar o episódio em suas redes sociais: “Não foi violência. Ela (a criança de 10 anos) já tinha uma vida sexual com esse homem ‘a’ (sic) 4 anos. Deve ter sido bem paga”. Não contente em assassinar a reputação de um ser indefeso e se recusar ao exercício da sororidade, ela ainda agrega uma justificativa sórdida: “As crianças se defendem chorando para a mãe; por que essa menina nunca chorou?”

À luz dessa narrativa infame, perde relevo simbólico, ao menos para mim, a reação de certos juristas e ministros da igreja católica que insistem em taxar como mais grave o crime contra a vida do feto do que a violação da integridade e dignidade física, psíquica e espiritual da mulher vítima de estupro.

Diante de todo esse descalabro ético, só resta silenciar sobre a falta de empatia e compaixão que assola a doentia sociedade brasileira em vários outros aspectos atualmente. E concluir, junto com o mesmo Fernando Pessoa, em outro poema:

“Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo”.

barapoemes.netFernando Pessoa (1888 – 1935) : Le Gardeur de troupeaux / O ...
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2 respostas para Myrthes Suplicy Vieira

  1. Cláudio Salvador Buono disse:

    Só posso admirar esse artigo. Belissimo. Verdadeiro.E terrível o F.Pessoa.!!!!

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