Fim das férias…

Voltando de La Rochelle

wilma legris

 

 

vu-du-train.com

 

 

No andar superior do vagão 7 do TGV viajei pela antiguidade como se estivesse deitada na relva a olhar para o céu…

Cumulus, stratus-cumulus, nimbus…

Algumas horas de viagem imaginária, com a sensação de comunicar-me com os mitos e deuses do Olimpo, reconhecendo alguns e criando outros seres fantásticos que apenas a mente de cada um pode oferecer.

O tempo, ah! O tempo de quanto tempo se passou entre aqueles momentos e os instantes mágicos de uma infância perdida, não a olhar estrelas – porque criança dorme cedo – mas a observar um firmamento pleno de histórias através das figuras desenhadas…

Impressionantes gênios do tempo, o “gigante” com as bochechas infladas produzindo o vento que talvez movesse o trem; ninfetas sobre ondas, longos cabelos levados pela brisa soprada pelo gigante que fazia avançar o bólido de aço; seres antropomórficos, quimeras gentis, pequenos e grandes animais desconhecidos; leões domesticados e panteras com comportamento de gato, sensuais e dóceis; árvores plantadas na atmosfera, oferecendo frutos comprometedores aos seres deitados lado a lado, na relva nublada que aparecia lá em cima; muitos pares em posições interessantes, sempre poéticas e doces; crianças correndo entre os bichos e, uma delas em voo livre, largando um precipício.

Abaixo, ao pé de uma árvore, ao lado de um riacho onde o verde da grama  tem a cor do stratus, o Soldado do Vale*, dorme sorridente e repousa para a eternidade com  dois furos no peito.

Triste poema de Arthur Rimbaud, ilustrado no meio do caminho, sem a pedra do Drummond.

Mares, lagos, rios, ondas altíssimas; mapas distintos das terras que conhecemos; mapas estranhos de lugares fantásticos, a Terra do Nunca e a Terra do Faz-de-conta; um pai delicado leva o filhinho a passear pela baixa atmosfera; adormecido, o bebê aquece-lhe o ombro, sereno como o seu pai que conhece o caminho.

O estilo das imagens é barroco; pintores famosos deviam olhar para o alto…

Deve estar chovendo não longe dali porque os nimbus são maioria a anunciar uma passagem tenebrosa; é a noite que cai e ouço do microfone, que em breves instantes estaremos chegando na Gare Montparnasse.

A mensagem que me tira do sonho continua: “e não retirem suas máscaras até a saída da estação; cuidem para não deixá-las fora do lixo ao deixarem o trem. A SNCF**deseja a todos uma boa chegada”.

*Arthur RIMBAUD
1854 – 1891

Le dormeur du val

C’est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent ; où le soleil, de la montagne fière,
Luit : c’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement : il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

**Société nationale des chemins de fer français

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