Myrthes Suplicy Vieira

A minha pátria é como se não fosse…

caianoitepirilampos.blogspot.

Estou cansada, extremamente cansada, de ser pautada emocionalmente por nossa surreal realidade política. Dia sim, outro também, sinto a indignação pulular nas minhas veias, a respiração encurtar, o peito travar, o sangue subindo para a cabeça e me instigando a produzir alguma forma de resposta racional para os falsos dilemas que abundam em nosso cotidiano: direita ou esquerda, justiça social ou ajuste fiscal, atenção à saúde ou à economia.

Sempre com o mesmo resultado: cansaço e desalento. Impotência intelectual somada à impotência afetiva: como me aproximar de opositores ideológicos, sem julgamentos, e tentar abrir-lhes os olhos para o inferno existencial em que se transformou nossa pátria? Como fazer todo mundo apostar que há saídas? Como convencer os mais renitentes de que a dignidade, o respeito e a temperança são talvez mais necessários do que a comida na mesa?

Esgotaram-se os adjetivos – do presente e do passado – usados pelos analistas políticos e gente de bom senso para qualificar com um mínimo de precisão a ignomínia das falas e da inação presidencial: louco, aloprado, doente, insano, perverso, canalha, biltre, velhaco, inconsequente, insensível, incompetente, ignorante, irresponsável, ferrabrás, fanfarrão, destemperado – isso sem considerar as críticas ácidas a seu lado terraplanista, negacionista da ciência, abertamente genocida, fascista, lambe-botas, misógino, homo e transfóbico, racista.

Não há consolo nas palavras. Por mais cheias de fúria e som, continuam não significando nada. A catarse verbal não constrói entendimento nem conciliação. Ao contrário, as pessoas parecem se aliviar da tensão diária escolhendo as palavras mais contundentes para vomitar seu descontentamento, mas, ao mesmo tempo,  isentam-se da responsabilidade pelo atual estado de coisas. Como dizia tristemente um velho amigo: “Quem não tem o que fazer, fala. Quem não tem o que falar, faz”.

Passados os primeiros minutos de choque com as últimas provocações do capitão amante da pólvora como arma para driblar sua indisposição para o diálogo civilizado e com sua curiosa rejeição ao espírito resignado do povo brasileiro, que ele traduz como efeminado e covarde, respirei fundo e percebi que não era preciso manifestar mais uma vez minha indignação. Tive certeza naquele exato momento que os dias de glória do Mito haviam chegado ao fim.

Entendi que ninguém mais precisa contribuir para sua derrocada. Ele é seu próprio e principal inimigo. Nem 24 horas se passam sem que ele seja desmentido pelos fatos, obrigado a recuar por outras autoridades do próprio executivo, do legislativo ou do judiciário, ou se veja humilhado publicamente pelo mar de críticas, vindas tanto da população quanto de instituições nacionais e internacionais respeitáveis, a tudo que faz e diz. Acuado, só sabe balbuciar com voz grossa, como se nem ele próprio acreditasse nisso: O presidente sou eu, pôrra!

O campeão mundial de atos falhos segue escorregando nas cascas de banana que ele mesmo coloca em seu caminho. Comporta-se como aquele bêbado inconveniente que provoca indistintamente os frequentadores do botequim como forma de demonstrar sua macheza e, quando alguém levanta e se oferece para a briga, fica gritando: “Me segura, senão eu mato esse desgraçado”. E, quando percebe que ninguém vai segurá-lo de fato, afasta-se rapidinho, resmungando coisas como “não vou sujar minhas mãos com o sangue desse inútil”.

Parece também repetir com prazer o script do velho machão folgado envolvido em casos de violência doméstica. É fácil perceber como sua tática para convencer as pessoas a não abandoná-lo segue exatamente os mesmos passos: primeiro, desqualificando e destruindo paulatinamente a autoestima de quem formou uma aliança com ele; depois, ameaçando a vítima de que “se você não for minha, não vai ser de mais ninguém” (= “nossa bandeira jamais será vermelha”); finalmente, quando a vítima, cansada de apanhar, se rebela e o despreza, mata/demite, alegando que foi um gesto desesperado para lavar a própria honra. 

Qualquer psicanalista de meia-pataca saberia indicar as múltiplas inseguranças que se escondem por trás da virilidade tóxica de quem finge comandar os destinos da nação: a consciência da própria baixa autoestima, assim como de sua absoluta falta de poder de sedução; o medo dos sentimentos ternos que poderiam ser classificados como “femininos” e que poderiam induzir terceiros a “perderem o respeito”; a compulsão em reafirmar sua autoridade, como forma de espantar o fantasma da consciência da própria incompetência; a histeria persecutória que leva ao controle dos mínimos passos da vítima, já que teme que ela se dê conta por si só das fragilidades do agressor; o medo-pânico de “virar gay” caso um dia abrigasse no peito um afeto inconfessável por alguém do mesmo sexo.

Mas, chovo no molhado. Seus apoiadores conhecem muito bem os traços do caráter de seu Führer e fingem não perceber seu potencial de destrutividade do senso de coletivo. Pior, seu pensamento primitivo encontra eco em uma boa parte da população ressentida. Legitimada por ele toda forma de discurso politicamente incorreto, quase ninguém mais se envergonha de demonstrar todos os dias sua intolerância raivosa e seu desatino cívico. 

Mas a pergunta permanece: por que nós, seus opositores e detratores, não nos juntamos para devolvê-lo de imediato à lata de lixo da história? Será que somos mesmo um bando de covardes e impatriotas? Apalermados, paralisados pela ausência de limites dessa criatura, teremos mesmo de suportar por mais dois anos a convivência com um exemplar tosco de anticristo?

Difícil explicar a apatia generalizada. A única coisa que me ocorre é recorrer à principal lição da biologia: a sobrevivência do indivíduo é mais importante e urgente do que a sobrevivência da espécie. Ainda na luta de cada um para manter a cabeça fora d’água, optamos por manter um silêncio envergonhado, reflexo da culpa que não podemos admitir publicamente.  Ainda assim, os primeiros sinais de mudança dos ventos felizmente já se anunciam.

Que me desculpem os que acham que essa forma de “entretenimento” é defensável. Nossa atual realidade não passa de simulacro de um insensato reality-show a que todos assistimos bovinamente por enquanto: um monte de gente confinada, disputando água, comida e sexo, se agredindo e se odiando mutuamente, acusando uns aos outros de inação, traição ou subserviência desmedida, exibindo com extrema desfaçatez os contornos odiosos de seu caráter, sua alienação, sua indiferença para com os valores civilizatórios mais comezinhos.

Dizem que a gente só muda quando se cansa de dar murro em ponta de faca. A mão da cidadania brasileira já está despedaçada e sangra sem controle. Pois que venha a mudança timidamente anunciada nas últimas eleições municipais: a ousadia de revalorizar certos dogmas da esquerda, o empoderamento da negritude e do feminino na cultura, o desejo de substituir as marchas militares pela dança irreverente nas ruas. Estaremos nós amadurecendo?

Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Myrthes Suplicy Vieira

  1. Gracinda Mendes da Silva disse:

    Sensacional! 👏👏👏👏

  2. Adoro saber que tem gente nova lendo o blog! Se vc escreve, eu publico. Abraços, wilma

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