José Horta Manzano

por José Horta Manzano (caetanista e cronista do Correio Braziliense)

Soropango da vingança

pubicado no blog BrasilDeLonge

José Horta Manzano

Para reavivar memórias de infância.

Se meu jovem leitor está ainda na casa dos vinte ou trinta anos, o que vou dizer agora parece vindo direto do planeta Marte: nos anos 1950, as crianças do Brasil brincavam na rua. Yes! Na rua, pé no chão, em cima dos paralelepípedos! Nas pequenas e até nas grandes cidades! Era um tempo em que ninguém era obrigado a fugir de bandido nem de bala perdida. Para os brasileirinhos de hoje, deve até parecer invenção da mídia intriguenta.

Naquele tempo sem televisão e sem videogame, os maiorzinhos jogavam pelada, enquanto os pequeninos brincavam de roda. Meninos e meninas misturados, que a sexualização da pequena infância ainda não estava em voga.

No hit parade, figurava o Soropango da vingança, uma cantiga importante. Como em todos esses cantos populares tradicionais, todo o mundo conhecia a mesma melodia, mas havia inúmeras versões da letra – cada família tinha a sua. As palavras eram misteriosas, desconexas, sem pé nem cabeça, mas ninguém ligava muito pra isso. O importante era que letra e música se encaixassem. Com a repetição, a cantiga acabava se fixando na memória. A prova de que repetir é bom pra decorar está aqui: passadas tantas décadas, a gente se lembra de tudo, de cabo a rabo.

A letra que aprendi com minha turminha era assim:

Soropango da vingança
Toda a gente passa lá

A costureira faz assim,
Faz assim também assim;

A passadeira faz assim,
Faz assim também assim;

A lavadeira faz assim,
Faz assim também assim.

E aí desfilavam todos os ofícios que a criançada conhecia – e que pudesse ser mimados.

Há quem diga que Soropango da vingança era calcada sobre a antiquíssima cantiga francesa Sur le pont d’Avignon (Na Ponte de Avignon). É verdade que, depois de passar pelo filtro da língua popular, “sur le pont” pode bem ter virado “soropango”, assim como “d’Avignon” é bem capaz de ter  se tornado “da vingança”. É verdade também que o espírito da cançoneta é o mesmo. Tanto a francesa medieval quanto a nossa colonial mimam os gestos de pessoas ou de artesãos.

No entanto, em desagravo à musicalidade de nossa alma cabocla, frise-se que a melodia de nosso “Soropango” é bem diferente da francesa. Faz até parecer que o criador da cantiga brasileira pescou a ideia no original e criou melodia própria. Em todo caso, nossa versão é bem mais melodiosa que a original.

Notinha da wilma: particularmente, conheço uma melodia de Heitor Villa-Lobos, com a letra “Passa, passa, gavião; tdo mundo é bom”, que levada ao teatro pela peça Villa-Lobos para crianças, no TUCA em 2011, priviligeou as particularidades dos membros de uma orquestra:

violinista faz assim, assim, assim;

fagotista faz assim, assim, assim…

E assim vai!

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2 respostas para José Horta Manzano

  1. Cláudio disse:

    Isso mesmo !. Verdade sobre a década de 50….descalços….a regra em casa era : chegou da Caetano , tira o uniforme… E tirávamos também os sapatos …. eu e meus irmãos descalços…e brincar ou na rua ou no quintal….as meninas de roda e os meninos futebol…..até hoje em casa, pricipalmente no verão, ando descalço….
    Ótima crônica.

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