Opinião – Ruy Castro: Modernos, não modernistas

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Opinião – Ruy Castro: Modernos,
não modernistas
11.set.2021 às 18h01

(enviado pelo José Horta Manzano)

Fotos de Pagu – Viva Pagu

pagu.com.br



Que bom, já se escutam os fogos pelos cem anos da Semana de
Arte Moderna de 1922, a se completarem em fevereiro. Mas será
possível completar essa história? Raro o dia em que não se
acrescenta alguma coisa à sua lenda —inclusive o que nunca
aconteceu e é atribuído a ela. Nessa história, que não para de ser
escrita e reescrita, fatos e personagens entram e saem
magicamente, num permanente rearranjo para torná-la mais
radical e indispensável.


Para ampliar o papel de Mario e Oswald de Andrade, diminui-se
ou se apaga a participação de outros protagonistas, como Di
Cavalcanti, Ronald de Carvalho, Graça Aranha ou o próprio
(decisivo para a Semana) Villa-Lobos, e incluem-se outros que
não tiveram a ver, como Tarsila (em Paris naquela época,
estudando arte acadêmica) ou Pagu (então com 12 anos e ainda
brincando de roda). Note bem, estamos falando da Semana de
1922, não do que se deu no resto da década. Há uma marota
tendência a misturar as duas coisas e botar tudo na conta da
Semana.


Por essa conta, o Brasil de 1922 era um atraso geral de que a
Semana veio nos salvar. Pena que essa versão não confira com
os depoimentos de tantos intelectuais do resto do país, que já
estavam em busca de alguma espécie de novo em seus burgos e
levariam anos para saber que a Pauliceia desvairara. Além do
que acontecia na única cidade brasileira que podia ser chamada
de metrópole —o Rio, com seu 1,2 milhão de habitantes e
intensos mercado e vida cultural.


Quando se sabe que Alvaro e Eugenia Moreyra, Ismael Nery,
Lima Barreto, Roquette-Pinto, Bertha Lutz, Orestes Barbosa,
Julia Lopes de Almeida, Cecília Meirelles, Gilka Machado, Theo-
Filho, Sinhô, Donga, Bidú Sayão, J. Carlos, Pixinguinha e muitos
outros já estavam produzindo exuberantemente no Rio em 1922,
pergunta-se por que não foram convidados a participar da
Semana. Não seriam modernistas o suficiente?


Não. Nem precisavam. Já eram modernos.

PARA SABER MAIS:

8 curiosidades sobre a Semana de Arte Moderna que você não sabia

Entenda as particularidades desse evento extremamente importante para nossa cultura artística.

Por Equipe Editorial – fevereiro 14, 2020 18364 4 Facebook Twitter Pinterest LinkedIn

8 curiosidades sobre a Semana de Arte Moderna que você não sabia
Foto: Arquivo Brasil

Separamos algumas curiosidades sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, um evento marcante na história da arte e do Brasil. Nela diversos artistas apresentaram o movimento modernista brasileiro, entre eles Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Heitor Villa-Lobos.


1. “Os Sapos” foi vaiado

Durante a leitura do poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, o público presente no Teatro Municipal fez coro e atrapalhou a leitura, mostrando desta forma uma desaprovação. https://arteref.com/poesia/os-sapos-de-manuela-bandeira/embed/#?secret=KKlwsDN7zn


2. Villa-Lobos de Chinelo

No dia 17 de fevereiro, Villa-Lobos fez uma apresentação musical. Entrou no palco calçando num pé um sapato e em outro um chinelo. O público vaiou, pois considerou a atitude futurista e desrespeitosa. Depois, foi esclarecido que Villa-Lobos entrou desta forma, pois estava com um calo no pé.

heitor villa-lobos

3. A Semana de Arte Moderna foi financiada pela oligarquia paulista

Após as críticas de Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, buscaram expor o Modernismo e defendê-lo. Surgiu, então, a ideia de fazer a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo, no mesmo ano em que a declaração de Independência completaria 100 anos. A data escolhida foi simbólica e representaria a “segunda” independência do Brasil – mas, desta vez, no sentido artístico.

Nesse momento, o apoio da elite paulista foi fundamental. Nesse contexto pertencente da República Velha, a oligarquia paulista tinha interesse em tornar São Paulo uma referência em criação cultural, posto que era ocupado pelo Rio de Janeiro.

Além disso, o início da efervescência paulista passou a se contrapor ao conservadorismo carioca, que era bem mais tradicional no ramo das artes. Assim, a Semana de Arte Moderna foi amplamente financiada pela elite cafeeira, que tomou a frente do evento que teria projeção nacional.

Teatro Municipal de São Paulo, inaugurado em 1911 - divulgação
Teatro Municipal de São Paulo, inaugurado em 1911

4. Os tomates de Oswald

Em muitos momentos durante o evento, principalmente em seu primeiro dia, os organizadores surpreenderam o público com os conceitos artísticos e estéticos que apresentavam.

No caso de Oswald de Andrade, a questão foi puramente de extravagância. Os boatos que correm no meio acadêmico, entre os estudiosos da semana, é que ele, um dos idealizadores do evento, pagou para que estudantes do Largo São Francisco, escola de direito da USP, atirassem tomates nele próprio durante a declamação de um poema. Simplesmente pela polêmica.


5. Era para ser uma semana, mas só durou três dias

Talvez porque a intenção fosse, de fato, experimentar e provocar mudanças, a Semana de Arte Moderna, na verdade, durou apenas três dias, alternados.

O evento esteve anunciado e programado para ocorrer entre os dias 11 e 18 de fevereiro, mas o Teatro foi aberto para as exposições nos dias 13, 15 e 17. Em cada dia, as apresentações foram divididas por tema: no dia 13, pintura e escultura; no dia 15, a literatura; e no dia 17, a música.

Ironicamente, alguns dos nomes mais importantes do Modernismo não estiveram presentes na Semana. É o caso de Tarsila do Amaral, provavelmente a pintora mais conhecida do movimento, que estava em Paris, e Manuel Bandeira, que ficou doente e faltou à declamação do seu próprio poema, Os sapos, no segundo dia.


6. Anita Malfatti x Monteiro Lobato

Um dos principais nomes do evento, Anita Malfatti, foi duramente criticada por Monteiro Lobato. Em 1917, ele publicou um artigo no jornal O Estado de S. Paulo criticando a exposição de Anita, que tinha acabado de voltar da Europa e estava repleta de obras modernistas.

Como consequência, muitas das obras dela que tinham sido vendidas foram devolvidas, algumas delas inclusive destruídas.


7. O público não gostou da Semana de Arte Moderna

Toda aquela modernidade não agradou o público. As pinturas e esculturas de formas estranhas, fizeram os visitantes se perguntarem se os quadros estavam pendurados da maneira certa. Os poemas modernistas eram declamados entre vaias e gritos da plateia.

A reação dos visitantes ecoou entre os especialistas, que trataram o movimento como desimportante e retomaram às críticas vorazes de Monteiro Lobato.

De fato, à época, a Semana de Arte Moderna não teve tanta importância. Mas, nos anos seguintes, o evento passou a ser considerado o marco que inaugurou o Modernismo no país e provocou os efeitos sentidos em todos os aspectos da cultura brasileira.


8. Vicente do Rêgo Monteiro, o único pernambucano da Semana de Arte Moderna

Divulgador das vanguardas europeias no Brasil, Vicente do Rêgo Monteiro (1899-1970) foi um precursor das ideias que nortearam a Semana de 22, com seu interesse nas lendas amazônicas e na produção de cerâmica marajoara desde a década anterior.

Deixou oito obras para serem expostas na Semana de Arte Moderna, mas, na época, vivia em Paris. Foi amigo de modernistas notáveis, como a pintora Anita Malfatti, o escultor Victor Brecheret e o pintor Di Cavalcanti, o que rendeu o convite à Semana.


Mário de Andrade e A Escrava que não era Isaura

Semana de Arte Moderna
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Durante a Semana de Arte Moderna, Mário de Andrade fez a apresentação do esboço de um texto que seria publicado na íntegra apenas em 1925, chamado A escrava que não era Isaura. No ensaio, ele defende um maior aprofundamento do verso livre, da síntese no uso das palavras e frases e defende uma maior valorização do que há de brasileiro na língua (características centrais que aparecem no movimento modernista).

Documentário sobre a Semana de Arte Moderna de 1922


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