Testemunho: Antonio Aurélio do Amaral

ANDRAUS

Mistérios depois do incêndio no Edifício Andraus - Webtudo Curiosidades
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Um dia São Paulo parou.


O ano era 1972 e eu estava em pé dentro de um ônibus que, inexplicavelmente, parou no meio da Avenida São João.

Ainda não era o ponto de parada, nenhum veículo à frente, nenhum semáforo, nenhum pedestre atravessando.

Do meu ângulo de visão percebi apenas um fusca azul claro que também parou do lado esquerdo do ônibus. Percebi que na calçada, do lado direito do ônibus, os pedestres também pararam, observando alguma coisa do outro lado da avenida. Imediatamente pensei que todos estivessem assistindo a fuga de algum “trombadinha”. Na época isso ainda chamava a atenção. Desci ali mesmo, pois já estava perto do meu destino.


De uma janela da sobreloja, no canto do prédio comercial envidraçado, saía um jato de fogo ameaçador que mal atingia um metro de comprimento. Dali mesmo assisti a rápida evolução na fase inicial, tendo de recuar até o posto de gasolina um pouco antes de onde eu havia descido.


O incêndio aumentava e me dei conta que onde eu estava “não combinava” com o que eu assistia. Ou ao contrário, combinava muito e perigosamente. Então corri pela rua oblíqua à Avenida São João, cujo ângulo formado era ocupado pelo referido posto.

Fui até o final da Praça Júlio Mesquita, próximo à antigamente bela fonte ornamental, assumindo um privilegiado ponto de observação. Lembrei-me que estava indo encontrar a então namorada, mas, imediatamente, pensei que o conhecimento do fato e a imaginação dela dispensariam minhas justificativas. Resolvido! (Telefone celular só se via nos filmes do 007 usado pelo inigualável Sean Connery e tinha o tamanho de um tijolo, a comunicação por telepatia raramente funcionava).


Na Praça Júlio Mesquita lembrei que uma vez por mês meu irmão ia no Andraus buscar os rendimentos de ações para nossa vizinha viúva sem filhos que diariamente ia nos chamar depois do jantar para assistir TV junto com ela. Mais de uma vez a gentil vizinha me mostrou sua foto de quando era jovem e me perguntou se não era mesmo “uma uva”. Respeitosamente eu respondia apenas: “Era”.


Mas meu irmão estava em casa, seguro.

No percurso, ouvindo o barulho de vidros estourando a mais de cem metros, um caco de vidro aquecido, pouco maior do que um grão de feijão, cai entre minha nuca e a gola da camisa. Pequeno susto que me fez correr por alguns metros.


Uma água, um xixi, voltei à rua. Trânsito, apenas algumas ambulâncias indo ou voltando em alta velocidade. No céu, helicópteros. Então passa um amigo, morador do quarteirão de baixo no edifício do Cinerama, abraçado com a irmãzinha que trabalhava no Andraus. Apenas trocamos olhares e semblantes. Nunca na vida tive um diálogo tão intenso e emocionante sem proferirmos nenhuma palavra. Sorrimos.


Depois me aparece um colega da faculdade de engenharia, presidente do Centro Acadêmico. Eu era o vice. Sugeri que fôssemos até a escadaria do antigo Instituto de Educação Caetano de Campos, de onde assistiríamos o espetáculo e, depois do incêndio, tomaríamos uns chopes.


Sentados na “escada-camarote”, além de chamas e helicópteros que só rodeavam o prédio fatídico, percebemos que havia uma pequena multidão lá em cima. Pior. Não passava um minuto sem que alguém sozinho ou acompanhado saltasse para a morte.

A distância não permitia perceber origem ou idade. Felizmente, também não víamos o final da queda de cada pessoa.

Durante o “voo” alguns giravam como uma estrela de braços e pernas abertos. Outros movimentavam desesperadamente as pernas como se tentassem desesperadamente subir uma escada invisível de cordas. Um casal “voou” sem soltarem as mãos.


Quando resolvemos ir embora, nenhum de nós dois lembrou de chope combinado.


Quem não saltou lá de cima foi retirado pelos helicópteros quando estes puderam se aproximar. O número dos que saltaram foi maior do que o número de vítimas divulgado.

Estima-se que a maioria das vítimas foram os que não conseguiram subir, ou retornaram para o interior do prédio diante do bloqueio de acesso ao heliporto. Terminaram calcinados em alguns banheiros, quando os ossos viram cinzas, eventualmente deixando algumas gotinhas metálicas de objetos portados ou de restaurações dentárias.


Os prédios não dispunham de escadas protegidas, à prova de fogo; acima de dez andares devem ser à prova de fumaça, por pressurização ou por antecâmaras de acesso.

O poder público demorou mais de dez anos, além da repetição amplificada da tragédia no Edifício Joelma, para obrigar a inclusão das rotas de fuga protegidas nas edificações. Os legisladores acatavam o argumento das construtoras de que a segurança proposta inviabilizaria a construção civil, causando desemprego em massa.


Meu colega de “plateia” do incêndio do Andraus desapareceu meses depois ao passar para a clandestinidade, após alguns de seus companheiros de fora da escola terem sido raptados e torturados pela ditadura. Eu, vice, tive de assumir o Centro Acadêmico.


Após me formar em Engenharia Civil, fiz a Especialização em Segurança do Trabalho. Entre outras atividades da profissão, treinei com a cabeça e o coração “algumas” Brigadas de Incêndio

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