Desaparecimento de Ely Goulart Pereira de Araújo

Eliana Sá· 

Anos 1940, Ely, com 17 anos, pega um trem na distante cidadezinha de Olímpia, no norte do estado, e muda-se sozinha para São Paulo, se hospedando numa pensão de freiras nos Campos Elísios.

Menina que não largava um livro, um jornal, uma revista, ela queria fazer Geografia, um novo curso que a aproximaria das paisagens que conhecia dos livros de Monteiro Lobato e da coleção O Tesouro da Juventude.

Da pensão, ela fazia o trajeto diariamente até o prédio da Caetano de Campos, na Praça da República. Isso por muitos anos, pois lá funcionava o preparatório e a faculdade — sim, passou com louvor pelo vestibular.

Ely contava de sua emoção de estudar com grandes nomes da Geografia francesa que eram professores da USP então e que implantavam aqui um curso aberto, universalizante, levando os alunos para campo, lendo e ouvindo aulas também em francês.

Sua formação se pautou muito por essa vertente. Extremamente curiosa, leitora voraz, ela deu aulas, escreveu verbetes de enciclopédia, textos técnicos.

Casada com outro geógrafo, seu ex-professor, e posteriormente professor emérito da USP, José Ribeiro de Araújo Filho, Ely participou ativamente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB).

Sua maior paixão, fora os dois filhos e três netas, era viajar. Correu mundo, andou até de camelo no Egito.

Divertida e culta, dona das palavras-cruzadas que completava de olhos fechados, rodeada de livros, carinhosa, ela levou enfermidades difíceis por longos anos, enfrentando quimioterapias com garra de viver.

No domingo, 12, foi embora pra outra viagem. Sem reclamar um ai. Aos quase 97, que faria agora no dia 01 de julho, Ely Goulart Pereira de Araújo, nos deu um adeuzinho e partiu.

Vejam que orgulho e que sorte eu tive na vida de ter convivido com esta mulher, minha sogra.

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2 respostas para Desaparecimento de Ely Goulart Pereira de Araújo

  1. Elvira Eliza França disse:

    Que bela retrospectiva da ex-aluna Ely. Quando li a palavra desaparecimento no título do artigo, fiquei imaginando que tinha sido levada pelos militares, durante a ditadura. Felizmente, foi um final feliz de alguém bem realizada na profissão.

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