Priscila Ferraz e eu, mais os nossos gatos.

 wilma schiesari-legris)

Queridos todos:

Seguem duas crônicas, uma com as patas no chão outra com as asas no céu.

Priscila e eu fizemos dois textos, o dela com a intransigente moral da história e o meu com a amoralidade dos sonhos…

Abraços gatunos,

wilma;

25/05/12.

 

Félix

 O Félix apareceu nas nossas vidas sorrateiramente, vagando pelos corredores do prédio, passeando pelo jardim de boa terra quente e dormindo num nicho da parede até ser adotado pelos habitantes do imóvel que assim o batizaram por ser ele um pleonasma em branco e preto do gato Félix.

Todas as velhinhas do condomínio adoravam falar com o Felix, mesmo sem saber miar e uma delas resolveu adotá-lo ensinando ao animal abandonado os caminhos pavlovianos para que ele chegasse ao seu apartamento situado no sexto andar.

Primeiro galgaram juntos as escadas e depois o percurso começou a ser feito por elevador porque a velhinha era mais idosa que o gato.

Félix foi subjugado pela carne fresca cortada à tesouradas devidamente apresentada num pratinho de porcelana, primeiro à porta do apartamento e depois no seu interior.

A astuta e felina velhinha concebeu então uma campainha para que o gato, assim que chegasse diante da porta mostrasse a sua presença faminta agitando a patinha no carrilhãzinho colocado estratégicamente ao pé da porta.

Assim, pouco a pouco o gatinho foi voltando e permanecendo no interior da casa com a liberdade de sair quando quisesse e regressando a cada caçada infrutífera tentada no jardim.

Não era um gato que se deixasse afagar: ia, comia e partia, voltando sistematicamente.

Quando o bichinho sentiu-se realmente à vontade, começou a tirar umas pestanas na sala e foi com grande surpresa que a senhorinha descobriu tratar-se, o seu pressuposto macho, duma fêmea: tinha ela uma enorme e cirúrgica cicatriz ventral, separando suas tetinhas em duas colunas estéreis.

O tempo passando e a confiança se instalando, Madame Félix deixou-se acariciar sem jamais entrar na categoria dos gatos descritos por Miguel Torga, nunca mostrando submissão, e mesmo, ao contrário, submetendo.

O gato ou gata pôs a pobre velhinha a quatro patas e para selar a sua autoridade passou a utilisar sistematicamente o elevador onde todos os eventuais ocupantes serviam-lhe de ascensorista, abrindo-lhe a porta da cabina no sexto andar.

Dali em diante a gata passou a olhar nos olhos da velhinha e cada vez que ambas estavam juntas, era ela quem fazia as observações sobre o estado da casa ou o moral da velhinha.

Aquela gata com olhos verdes e diabólicos sabia: sabia da subserviência da velha, da sua submissão milenar, do seu altruísmo e da sua mesquinharia.

Acompanhando o olhar a anfitriã, passava as horas a conjecturar a miséria da vida humana se comparada àquela dos gatos vagabundos, a ponto de convencer sua senhora a abandonar sua casca humana e tornar-se gata como ela.

Era o fim das gatas borralheiras e o começo da reflexão.

Aquela velhinha estava começando a entender de filosifia com sua arrogante gata!

Que melhor vida de uma fêmea, mesmo comparando com aquela da gata castrada, do que ser apenas um animal onde a humanidade se manifestava mais pungente?

A gata nunca miou, nunca deixou-se pegar ao colo, nunca arranhou e sequer destrui o tecidodo sofá onde doravante passava as tardes a observer sua serva.

Ela considerava as maneiras da velhinha presenciando as vulgaridades comportamentais cometidas pelas pessoas que vivem sós e descuidam-se dos aparatos de educação requeridos pela vida em sociedade.

Quantas não foram as frases ditas em voz alta que repgnariam um vizinho mais avisado e que a bichana ouviu calada?

Quantos não foram os telefonemas não atendidos ou se assim não ocorressem, que eram recheados de mentiras ou inverdades que o animal descompreendeu?

Que continham aquelas cartas que chegavam ao apartamento ou que dele saíam para um neto distante ou um filho interessiro, herdeiro único, que seria o dono do espaço da gata no tempo em que a morte colhesse a sua hospedeira?

A suposta ordem dos objetos e da decoração, pensava o bicho, escondiam uma desordem qualquer?

Quem eram aqueles parcos visitantes que às vezes iam jantar com elas, apreciando mais a gatinha que a senhorinha?

Por que tantos livros nas bibliotecas e tão poucas e murchas as flores nos vasos?

Todas essas questões ficaram sem resposta até o dia em que a senhoria resoveu comer do mesmo pratinho que a gata, agachada ao chão, ao lado dela.

A bichana partilhou a ração e permitiu que a dona se sentasse com ela no sofá da sala; às vezes ambas faziam a sesta dentro do armário embutido do quarto ou espreguiçavam juntas sobre o tapete bordô.

Quando a gata curvava o dorso esticando as patas dianteiras, sua dona sentia-se melhor da lordose; quando o animal lambia as patas para depois limpar o pelo da cabeça e das orelhas, a velhinha sentia-se mais asseada e quando Félix procurava uma réstia de sol vinda da janela, dividia o espaço com ela.

O único senão é que naquela altura a velha e a gatinha eram da mesma velhice e o animal não era mais visto da janela, nas horas em que ficava fora de casa, a trepar nos muros altos, escalar as árvores ou a caçar os passarinhos desavisdos que bicavam no jardim.

O apartamento foi legado em cartório à bichana.

A velhinha morreu tentando saltar dum galho alto do jardim; ela havia tomado por hábito caçar lagartixas e passarinhos, que a quatro patas levava para Félix subindo a pé os seis andares com a presa entre os dentes.

 (in Crônicas e contos cruéis)

Indiferença
by KBR

A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu
tamanho original.
Albert Einstein
 
É impressionante como podemos passar às vezes a vida inteira com determinadas certezas que se mostram, em algum ponto de nossa existência, absolutamente errôneas. Foi o que se deu comigo em relação aos gatos.
Quando muito pequena, ganhei um gatinho branco muito lindinho, mas que se revelou em incrível criadouro de pulgas. Eu estava encantada com o bichaninho e tinha convicção de que ninguém neste mundo poderia deixar de gostar do bichinho. Foi quando chegou minha mãe:
— Olha, mamãe, o que ganhamos. — Eu já estava dividindo o presente para não correr o risco de ser chamada de egoísta, de ser acusada de querer ficar com aquela belezinha só para mim.
— Onde você arranjou isso?
— Foi o moço que mora aí na casa ao lado que me deu. A mãe dele ganhou muitos filhinhos e não pode ficar com todos, então ele quer dar para a gente.
Até aquele instante eu estava com o gatinho no colo e mamãe ainda não tinha se aproximado; mas foi aí que ela chegou mais perto e pode observar todos aqueles pontinhos escuros se movendo freneticamente pela pelagem branquinha no animal. Correu, pegou uma caixa de sapatos e mandou que eu colocasse o pobrezinho lá. Pela cara meio desesperada que ela fez, achei melhor obedecer e questionar depois.
— Mas, mamãe, coitadinho, ele vai ficar com frio.
— Você leve imediatamente esse bicho imundo para o lugar de onde ele veio, aliás vou mandar a Amélia levar. Você pode ir já tomar um banho para se limpar um pouco. Espero que não tenha pegado nenhuma doença.
Comecei a sentir aquele calor no rosto que parece que vai explodir, e as lágrimas vieram aos borbotões. Quando Amélia esticou os braços para pegar a caixa de sapatos, senti que era como se alguém estivesse me arrancando as entranhas: é incrível como as crianças e adolescentes sentem tudo com muito mais intensidade do que nós, adultos, e parece que quanto mais vivemos menos nos afetam os dissabores, as desilusões. Entretanto, acho que aumenta a capacidade de amar, aquele amor paciente e tranquilo.
Resumindo a história do gatinho, nunca mais o vi. E sobrevivi, ao contrário do que pensam muitos quando não querem contrariar nenhuma vontadezinha dos filhotes. Aprendi a lidar com isso e nunca mais quis saber de gatos, que, com o passar dos anos, comecei a considerar falsos, sorrateiros, não amorosos… até que um dia…
Bem, minha filha adora todos os animais, e dentre cobras e lagartos —literalmente — resolveu trazer uma gatinha que adotou nos Estados Unidos. Quando ela ainda estava lá, eu já ficava meio de longe, com medo de levar uma unhada ou coisa parecida. Mas acabei me encantando.
Não se pode esperar arroubos de alegria quando se chega em casa, nem rabinhos abanando, somente um arzinho blasé quando ela vem me receber no alto da escada como se estivesse passando ali por acaso, mas a gente sabe muito bem que ela pressente nossa chegada muito antes do barulho do carro entrando na garagem. O máximo que ela faz é permitir que façamos carinhos em suas costas, e agora que está à vontade, até a barriguinha rosa ela expõe para que passemos os dedos por ela.
Moral da história: precisamos manter nossas mentes abertas e aceitar novos desafios. Saber que não somos donos da verdade.

Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores, Sobre "Crônicas e contos cruéis". Bookmark o link permanente.

2 respostas para Priscila Ferraz e eu, mais os nossos gatos.

  1. itajaci disse:

    Excelentes crônicas! Parabéns a vocês duas que souberam tão bem captar as almas felinas.

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