Renato Castanhari Jr., igualmente caetanista.

DOMINGO NO PARQUE

por Renato Castanhari Jr.

Enio abriu os olhos e os fechou rapidamente, assim que a luz da janela, sem cortinas, invadiu suas retinas. Segundos depois, voltou a abri-los, aos poucos, franziu levemente a testa como quem busca uma informação no seu HD.
Que dia é hoje? Domingo… ele chegou, caceta. Logo o celular vai tocar, Marilda vai me dar um bom dia, com muita alegria, e vai me intimar a levantar da cama, como no domingo passado. E eu vou responder: bom dia, meu amor, já estou quase pronto!
Não sei se vou me acostumar a essa vida saudável, de caminhar no parque, pelas alamedas cheias de árvores, gramas molhadas pelo orvalho doce da manhã.
É verdade que o primeiro domingo da “volta do guerreiro à atividade física”, como ela chamou, foi cheio de emoções, pelo que me lembro.
Coloquei meu Nike Air, “Just do it”, minha camisa branca do timão, assinada pelo Biro-Biro, moletom preto de riscas brancas, da mesma cor da fita na testa, como o Dr. Sócrates usava nas gloriosas tardes de domingo, e desci para cozinha onde sorvi um suco verde batido na hora.
Marilda já me esperava na calcada com sua bike rosa choque. Peguei a minha Tryon XP, que comprei do Carlos quase sem uso, a não ser quando ele a transformou em um varal ergométrico pendurada na área de serviço, e pedalamos juntos as dez quadras para chegar ao parque.
O ar da manhã invadia meus pulmões em golfadas densas e frescas, meus músculos das pernas fatigados pela falta de prática pediam clemência, mas minha resoluta disposição de romper com o sedentarismo não dava bola e os obrigava a continuar.
Chegando ao parque, o primeiro contato com o chão fez minhas pernas bambearem, mas imediatamente me aprumei novamente, levei a bke para o estacionamento e a acorrentei, junto com a da Marilda, com o cadeado recém comprado.
Isso feito, pegamos a alameda, repleta de árvores e começamos a caminhada. A diversidade de transeuntes era espantosa, crianças com triciclos andando com seus pais que trotavam ao lado, senhoras um tanto cheias de vigor e celulites que conversavam animadamente enquanto andavam, casais atléticos que desfilavam elegância e saúde, muita saúde.
Ensaiei alguns movimentos de braços, enquanto movimentava agilmente minhas pernas, para os lados, para cima, dando cutucadas no ar com os cotovelos a 90 graus, mas logo parei sob o olhar reprovador de Marilda.
Na segunda volta do circuito, confesso que meu vigor escoava pedindo água, enquanto Marilda esbelta, altiva, se mantinha tal qual chegou, inspirando e expirando pelas narinas, sem um pingo de suor ou sinal de cansaço.
Tentei acompanhar, mas minha coordenação motora começou a dar os primeiros sinais que estavam para entrar em pane. Senti um desconforto visual ao perceber uma espiral de tons escuros bloquear minha visão. Meus músculos das pernas se rebelaram de vez e demonstram não estar mais interessados em sustentar o resto do corpo. Foi quando cai.
Marilda depois me contou que chamou o seguro saúde que providenciou a ambulância que nos levou, assim como as bikes, de volta para casa.

Enio agora olhava para o teto do quarto. Ficou alguns minutos nesta posição. Em seguida, pegou o celular que recarregava sobre o criado e o desligou. Ato contínuo, deitou sobre o travesseiro e colocou o outro sobre a cabeça.

E esta segunda-feira que não chega!!!

Renato Castanhari Jr. | 17/09/2017 às 12:02 pm | Categorias: CRÔNICAS/CONTOS | URL: http://wp.me/p1GYYg-ul
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