Roberto DaMatta, na moita!

O amigo do amigo do meu pai

Tanto a consanguinidade quanto a afinidade são rotineiras no caso dos empenhos políticos nacionais

Image result for pero vaz de caminha cartaNotaTerapia– carta de Pero Vaz de Caminha
Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

24 de abril de 2019 | 02h00

Poderíamos continuar até chegar a uma paternidade cósmica e fundadora. A Adão ou ao Pai Criador que inventou a luz num mundo de trevas e dividiu os seres divinos dos mortais. O universo tem buracos negros e, como todos nós, está em pleno desequilíbrio.

Agora, o que realmente envergonha é o Supremo Tribunal Federal. Por meio de um presidente cuja biografia revela uma certa aversão a conflitos de interesses, reinventar numa canetada monocrática a censura num Brasil que exige liberdade com igualdade. 

Como a gravidez, a liberdade é imune ao mais ou menos. Qualificá-la, excluindo os membros do Supremo (como foi feito com os militares), é recriar um abusivo “Você sabe com quem está falando?”, cujo estudo sociológico eu realizei há 40 anos. 

Image result for censura brasilWebstagram

A censura tem tudo a ver com a reintrodução do favorecimento devido aos membros do nosso grupo, partido, classe ou categoria. É um traço estrutural das sociedades relacionais nas quais a igualdade é relativizada por hierarquias de muitos matizes. No caso do Brasil temos, significativamente, um documento original: a Carta de Caminha. No seu finalzinho, surge um pedido de favor dos que são capazes de falar abertamente (ou como amigos) com o soberano. O acesso ao Supremo é um privilégio vedado aos comuns:

“E nessa maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, me levou pelo miúdo. (…) Vossa Alteza há de ser muito bem servida por mim. A Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé, a Jorge de Osório, meu genro, o que dela receberei em muita mercê ( = com muito gosto).

Pero Vaz de Caminha, 1.º de maio de 1500”.

Related imagetwitter.com

Os elos de amizade surgem igualmente com um Manuel Bandeira desejoso de ir embora pra Pasárgada onde seria amigo do Rei e teria mulher em cama escolhida. Igualzinho a um Brasil a ser transformado. 

Saliento que no mesmo poema a amizade é complementada pelos elos do parentesco, pois em Pasárgada, “a existência é uma aventura de tal modo inconsequente que Joana a Louca de Espanha, rainha e falsa demente, vem a ser contraparente da nora que nunca tive”.

Image result for PasárgadaPoesias Preferidas – WordPress.com

Fui um dos poucos, senão o único, a tentar um entendimento sociológico da amizade no plano do poder à brasileira. Amizade de um lado; parentesco e herança de sangue ou casamento do outro. Os genros dos genros são exemplares tal como os cunhados e sobrinhos cuja não nomeação para um cargo público pode levar ao divórcio se o marido virar presidente de Pasárgada. Não vou falar dos filhos ou de uma eventual filha superpoderosa porque isso iria me levar para a história.

Tanto a consanguinidade quanto a afinidade são rotineiras no caso dos empenhos políticos nacionais. A questão surge quando a democracia imanente ao regime republicano introduz o requerimento do mérito e da impessoalidade, que eliminam a amizade, a filiação e o nome de família. Se o sangue (sobretudo o azul da cor do céu) é o traço distintivo das aristocracias que foram o nosso apanágio até o finalzinho do século 19, quando (com o fim legal da escravidão) mudamos – como estamos tristemente testemunhando – na forma, mas não num renitente conteúdo. Pois o peso moral do parentesco (baseado na herança e na ideologia fundacional das origens) e das amizades (que replicam o mesmo modelo) continuam a operar, bloqueando os critérios impessoais – de fora das “casas”.

O amigo do rei tem a mulher que quer na cama que escolhe; a amante do imperador virava marquesa, o genro do genro é eleito governador. E o amigo do amigo do meu pai, promovia negócios. 

Num trabalho antigo, expus os axiomas da amizade no Brasil. Ei-las:

a. Amigo de amigo é amigo.

b. Inimigo de amigo é inimigo.

c. Mulher de amigo é homem.

d. Lei, cadeia, má-fé, não reconhecimento e negação da realidade aos inimigos; aos amigos, tudo!

e. Tenho a coragem para tudo, menos a de negar um pedido de amigo.

                                   carlostonet.wordpress.com Related image
Esse post foi publicado em Atualidades. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s