wilma schiesari-legris: crônica(Sonho de uma noite de verão)

Até nos bastidores quiméricos predominam clichês batidos.

Acordei no meio do sono  paradoxal, com um sonho pesado, que não tinha nada de pesadelo: minha xará brasileira, vinte e cinco anos mais experiente do que eu em vivências materiais terrestres não habitava mais o seu apartamento paulistano situado numa colina que segue para o oeste da capital paulista; ela morava numa pequena casa solitária e rústica, de madeira, construída às margens de um riacho num subúrbio ideal, não longe de uma nascente; por razões inconscientes as águas se engrossavam paulatinamente e viravam um rio estreito, mesmo antes de ter penetrado no terreno de sua propriedade.

Considerei rústica aquela casa onírica, talvez por tê-la enxergado como feita de madeira; embora sua idealização arquitetural era de grande sofisticação pois a maior das peças, a varanda, literalmente cavalgava aquela sinuosa linha líquida, como se ponte fôsse, mostrando à gente o deslizar brando das suas águas.

Para encontrar a xará, tomei um ônibus aqui em Paris e o ponto final da linha era em frente da casa brasileira da velha senhora, onde os demais veículos destinado àquele trajeto faziam fila, vazios, à espera de outros passageiros e da hora marcada para a partida do veículo que deveria retornar em direção da cidade-luz.

Quando a xará abriu-me a porta, encontrei-a em robe de chambre, ladeada pelo seu finado marido.

Incomodados ao ver-me aparecer muito  antes do momento do almoço tão esperado, dei-me conta que estava chegando algumas horas antes da prevista, no instante oportuno do café da manhã e, sem querer, colocando um rebuliço inesperado no cotidiano do casal.

Fui visitá-la sozinha ou alguém me acompanhava?

Sendo simples e singela, e para não quebrar o ritmo daquela manhã, lhes disse que iria à varanda apreciar a passagem da correnteza.

Lá, apoiada na balustrada da ponte enquanto o casal tomava o seu café-da-manhã, inclinara meu tronco como se quisesse tocar asuperfície da água, e meus olhos curiosos iam apreciando o seu percurso , fosse em direção à foz, quiçá do imenso mar.

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À guisa de embarcações e por ser o arco da ponte-varanda relativamente baixo, por ali não havia pedalinhos, canoas, nem barcos.

Depois de alguns instantes parada diante do movimento aquático avistei uma longa jangada sem jangadeiro e, sobre as pranchas flutuantes vi uma infinidade de mudas e grãos em pequenos potes que seguiam o seu caminho; sob meus pés, era um jardim ondulante, um paraíso para os olhos e para a alma, que desfilava ao som aquático do rio e do burburinho do chá que minha amiga versava na xícara do seu companheiro.

O tempo estava conveniente com o calor amistoso do casal fazendo o seu desjejum e com o jardim que se  mostrava deslizando vaidoso para se esconder de vez, quando a primeira curva se lhe aparecesse.

Se eu tivesse chegado ao encontro no horário conforme, haveria perdido o espetáculo majestoso e não poderia nunca mais observar através dos sons a meticulosidade do serviço doméstico, aquela música matutina para um duo de idosos.

Quando fui adverti-los do trajeto mágico daquela embarcação carregada de esboços de plantas que nutririam o futuro da humanidade, encontrei minha amiga sozinha, ao lado do grande jarro de flores, embranquecida pelo mármore que a representava no seu dia-a-dia e que um escultor advertido soubera esculpir.

Eu não era como ela, de pedra dura, mas senti meu sangue correr nas artérias e subir pelas veias com o ritmo daquele riacho, descolorindo-se do vermelho, rosando e embranquecendo, engrossado pelo gesso da vida.

Nunca mais nos vimos, ela e eu, cada qual no seu paraíso perdido e particular, sem anjos nem demônios e sem o limbo dantesco do purgatório, ela quase aos 90 anos e eu, alguns anos mais jovem.

Julho 2016.

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4 respostas para wilma schiesari-legris: crônica(Sonho de uma noite de verão)

  1. msuplicy disse:

    Adorei sua crônica, Wilma! Graças à sua habilidade com as palavras, fui transportada para o cenário onírico, como se eu mesma estivesse sonhando.

  2. Arnaldo Itamar R Menon disse:

    Gostei da crônica. Excelente.

  3. Arnaldo Itamar R Menon disse:

    Surreal. Bom demais. Demorei um pouco, mas acompanhei o raciocínio.

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